REVOLTA EM CRUZ DAS ALMAS

Conta-nos o memorialista Mário Pinto da Cunha que a Sessão Especial do Conselho Municipal da Villa de Cruz das Almas no dia 19 de abril de 1907, teve a sua ata aprovada por unanimidade.

Diz-nos ele: “Esta acta, é desnecessário dizer, foi unanimemente approvada, mas foi também o prenuncio da crise de terror que avassalou a Cruz das Almas, durante algum tempo.
Aqueles que a approvaram nunca tiveram em mente que a sua resolução provocaria espancamentos, assassinatos, despatriamentos, depredações, arrombamentos, saques e outras arbitrariedades assistidas pela população deste munícipio”.

O memorialista conta-nos ainda que “sobre a administração do Sr. Themístocles da Rocha Passos nada se poude obter do archivo municipal, em vista de se ter o mesmo desbaratado por occasião das célebres occorrências provocadas pelas patrióticas scisões políticas e mudanças de governo entre 1908 e 1909, quando as depredações e os arrombamentos predominaram neste, como em todos os municípios do Estado da Bahia”.

Alguém mais sabe discorrer, com maiores detalhes, sobre este evento, ao que parece, foi um dos mais conturbados períodos da história política de nossa cidade? Quem? Como? E por quê?

ANTIGA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA

Estação Cruz2

A Estação de Pombal foi aberta pela E. F. Central da Bahia na sua linha principal, em 1881. Mais tarde o nome foi alterado para Cruz das Almas. Desta estação, que ficava a 6 km do centro do município, deveria sair uma variante que uniria a linha à estação de Santa Teresinha, na mesma linha, atravessando o rio Paraguassu mais para o sul, eliminando o gargalo da ponte entre Cachoeira e São Félix. Esse era o projeto dos anos 1960, que nunca foi construído. Ferroviários da região dizem que a estação recebeu muito cimento vindo de Minas Gerais por via ferroviária nos anos 1970. Ela fica próxima da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, que é situada na entrada rodoviária antiga da cidade. A partir de 1970, a lista de estações no Guia Levi já não mostra a estação de Cruz das Almas, mas sim uma estação chamada de Eng. E. Macedo, comumente chamada de Eurico Macedo, que é a mesma – a falta de documentação não permite a confirmação, mas o prédio tem arquitetura dos anos 1930 e o fato de ter sido construída uma nova estação mais próxima à cidade também com o nome da cidade (na linha de Santo Antonio de Jesus, aberta no final dos anos 1950 e erradicada em 1964) levam à quase certeza que a estação mais afastada tenha trocado o nome. “Dá medo visitar a estação Eurico Macedo, é um lugar isolado, não existe absolutamente ninguém; para andar na linha, só quando se acha alguém do lugar que sabe exatamente onde ela fica. Passei em lugares em que mal cabe o trem, não tem vias marginais, só mato e trilho, e se o trem passar no momento exato, aí complica” (Roosevelt Reis)

Conta-nos Geraldo Almeida Souza… “a Estação de Pombal, também conhecida como estação velha. Está viva na minha memória o deslumbramento de criança ao ouvir o apito da maria fumaça e o seu despontar bufando os vapores da caldeira. Tinha uma pequena vila ao seu redor com casas de funcionários da ferrovia. No pátio os vendedores de amendoim, laranja, cocadas e outros alimentos comercializados com os passageiros. Essa lembrança é da década de cinquenta o que prova que o nosso cérebro é um fantástico computador.”

(FONTES: Lorena Silva Santos; Roosevelt Reis; Cyro Deocleciano R. Pessoa Jr.: Estradas de Ferro do Brazil, 1886; A Leste Brasileiro e o Desenvolvimento Econômico da Bahia, 1960; IBGE: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XX, 1958; Guia Geral das Estradas de Ferro, 1960; Mapa – acervo R. M. Giesbrecht, via http://www.estacoesferroviarias.com.br/ba_monte%20azul/cruzalmas.htm )

PAULO CÉZAR, O PROFESSOR.

Finalmente, chegou o momento de falar sobre ele, essa figura que fascinou grande parte dos jovens que tiveram a felicidade de frequentar sua classe, tanto no curso secundarista como no curso superior e que o saudoso professor de Biologia Luizinho, se referia ao nosso homenageado como “Mestre”, num gesto de reverência e apreço à sua pessoa. Foi meu professor de Química e Biologia no cursinho, onde babávamos diante de tão boa didática e de tanto conhecimento. Estamos falando de Paulo Cézar, professor e Engenheiro Agrônomo, ex pesquisador da Embrapa – Mandioca e Fruticultura, foi meu orientador de estágio já no meu segundo ano de Agronomia da UFBA. Vários aspectos relacionados a um professor podem ser percebidos pelo aluno (como fala e anda, como se veste, se torce pro Bahia ou Vitória…). Tem aluno que se esquece de estudar e fica apenas tietando o professor durante o ano todo. Veja que nos idos de 1982 o nosso “artista dos livros” queimou a mão quando soltava uma espada de são João. No dia seguinte todo mundo já sabia do ocorrido, pois se tratava de uma pessoa amada pelos estudantes e que despertava também o interesse sobre sua vida extra classe. Na verdade, nossos mestres são simples mortais, do mesmo modo como todos somos, com altos e baixos ao longo da vida, que sofrem na tristeza, que se regozijam na alegria e enfrentam suas lutas no dia a dia. O Professor Weliton queimou a boca, professor Paulo Cézar queimou a mão…. e assim caminha a humanidade. Certa vez, me parece que em 1979 ou 1980, o professor Sebastião (de matemática) trouxe jalecos de Salvador para que os professores do cursinho os usassem durante as aulas. O cursinho tinha um pequeno escritório próximo ao quadro de giz, onde se guardavam pequenos materiais e onde havia sempre um funcionário de prontidão. Foi ali que o professor Paulo Cézar vestiu seu jaleco pela primeira vez e se dirigiu ao tablado para iniciar a aula daquela noite. Ele sempre foi uma pessoa muito desconfiada, e foi assim mesmo, desconfiado, que ele surgiu diante do quadro de giz. Parecia que já sabia o que poderia acontecer quando o vissem assim. Pois, quando ele subiu no tablado e antes de falar qualquer coisa, a estudante Ademildes (Mica de 21), que já estava sentada aguardando o inicio da aula, ao vê-lo deu uma grande gargalhada, apontando para o ilustre professor. Nosso mestre, prevendo o sinistro, voltou para o escritório de ré, feito um raio, tanto que poucos puderam vê-lo de jaleco. Retornou, depois, sem a indumentária, fazendo de conta que nada havia acontecido e iniciando a aula. A suada vida acadêmica gerou visíveis acúmulos em nosso mestre, conduzindo-o à Embrapa e depois à Escola de Agronomia da UFBA. Lembro-me como se fosse hoje, um estudante veterano da Agronomia, preocupado com a aprendizagem, perguntou ao então Coordenador do Colegiado de Engenharia agronômica se o professor que viria a assumir uma dada disciplina era bom. O Coordenador, de pronto, respondeu: “Paulo Cézar já era professor desde o ventre da mãe dele”. Foi aí que percebi que tratava-se do meu antigo professor de cursinho pré vestibular. Tive o prazer de sua convivência em alguns momentos importantes da vida acadêmica e antes dela, o que muito me honra. Aliás, eu e Luizinho fomos lançados no magistério pelo respeitado professor, que não admitia conversinha em sua classe. Era comum dirigir-se à turma que conversava durante a aula, dizendo: “quem não quiser assistir à aula pode sair pela porta, pela janela, pelo telhado… fique à vontade”. Os conversadores, então, se calavam, num misto de temor e respeito ao eterno mestre. Talvez ele não saiba, mas a galera se divertia diante de tão desproporcional esporro. Pronto, já estava garantido assunto para o ano inteiro. Agora, já aposentado, para coroar definitivamente as suas ações pela educação, nos brinda a todos com a identificação de uma nova espécie de mandioca (M. cezarii), publicado no periódico NOVON, do Missouri Botanical Garden, cujo nome específico é dado em sua homenagem (Cézar). Pensei, Paulo Cézar trabalha caladinho, pois achava que, uma vez aposentado, estaria se dedicando apenas às crônicas que escreve para conhecido blog local. Que nada, ele estava trabalhando em mais uma de suas pesquisas. Por esta identificação, outra pessoa, talvez, estivesse soltando foguetes até agora, chamando a atenção de todos para si, mesmo porque é um feito fantástico. Mas, se assim fosse, não seria mais ele, pois trata-se de uma pessoa muito discreta, que detesta holofotes e vai vivendo assim a sua vida, contribuindo para com a sociedade e para com a ciência. E é por isso mesmo, vivendo o seu excentrismo, que arrebanhou muitos fãs em Cruz das Almas e Região, colaborando com a formação de tantos profissionais espalhados pelo mundo a fora. Há três anos conheci uma bióloga na região Oeste do Estado que lembrou dele a certa altura da nossa conversa, e a quem fez elogios enormes, pois teria sido sua colega durante o doutoramento na UEFS. Boa reputação soa bem aos ouvidos, principalmente quando o alvo é uma pessoa de quem gostamos. As pessoas, na verdade, estão permanentemente observando uma a outra, que lhes chamam a atenção por algum motivo. Pois, o juízo a que fazem nosso amado mestre é dos bons, o que faz dele uma pessoa de moral ilibada e de conduta irretocável. Vai aqui a nossa gratidão por tudo que tem realizado e continua realizando, dentro da sua possibilidade, transferindo conhecimento e sendo exemplo de grande figura humana que é. Ave, Cézar!

(Crônica da série RÉGUA E COMPASSO de Zé Moraes.)

Veja também: https://www.ufrb.edu.br/portal/noticias/4195-professor-da-ufrb-e-homenageado-com-nome-de-nova-especie-de-mandioca-silvestre

O RIO CAPIVARI

Conta-nos o memorialista Leandro Costa Pinto de Araújo que, em épocas passadas, paralelamente à Ferrovia Leste Brasileiro, lá pras bandas da Estação do Pombal, corria o rio Capivari de modo contínuo em longo percurso, desde a nascente até o seu desaguadouro no Rio Paraguaçu na cidade de São Félix, no qual havia peixes de várias espécies e eram feitas muitas pescarias, preferencialmente com anzol. Inclusive, no trecho mais largo, em frente da Estação Ferroviária, havia uma ponte de madeira ligando a estrada com destino a Muritiba, destinada à travessia de veículos, pessoas e animais. Por ali passavam também os pequenos caminhões conduzindo fumo beneficiado até o porto de Cachoeira, para ser transportado por via marítima, entre os quais o do armazém de Garridinho, dirigido por Crispim de Adélia. Nas grandes tempestades o volume de água crescia provocando enchentes que atingiam as casas ribeirinhas, indo até o quintal da venda de Aristóteles, situada próximo à ferrovia. Atualmente esta importante dádiva da natureza está agonizante e ecologicamente destruída. Os peixes desapareceram em razão do alto grau de poluição; seu curso d’água outrora volumoso, nos dias atuais é apenas um córrego, interrompido em vários trechos pela formação de brejos e pastagens.

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Apesar de ser comemorado em todo o território nacional, conforme indica a Lei Federal nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra não é feriado nacional. No entanto, alguns municípios decretam feriado municipal neste dia. Em Cruz das Almas, por exemplo, desde 2009 foi sancionada a que estabelece oficialmente o dia 20 de Novembro como feriado municipal.

FERIADOS

(FONTE: http://www.feriados.com.br/feriados-cruz_das_almas-ba.php )

A FÁBRICA DA SUERDIECK EM CRUZ DAS ALMAS

Em 03 de novembro de 1935 a Suerdieck inaugurou uma filial da sua fábrica em Cruz das Almas, cidade onde a empresa já possuía armazéns de fumo. A antiga fábrica ia de um lado a outro do quarteirão, havendo fachadas voltadas para três ruas: a 15 de Novembro, a Crisógno Fernandes e a Lélia P. Passos.
No século XX, o estilo Art-Déco se fazia presente em alguns exemplares arquitetônicos baianos, como pode ser visto nos antigos prédios desta fábrica da Suerdieck aqui em Cruz das Almas e na da Leite & Alves em Cachoeira, ambos da década de 1930.