O PARQUE SUMAÚMA

Localizado no bairro Lauro Passos, é uma área plana, aprazível, situada no perímetro urbano de Cruz das Almas que, no passado, era a sede da Fazenda Bonsucesso, de propriedade do ex-prefeito da cidade, Dr. Lauro de Almeida Passos, falecido em 1982. Com o desmembramento da área, que se transformou em loteamento, abriram-se ruas largas e uma grande praça.

Sede da Fazenda Bonsucesso

Com o objetivo de preservar uma árvore de sumaúma (ceiba pentandra) ali existente, construiu-se uma praça nas proximidades da sede da antiga fazenda, uma área ampla e mais arborizada. Essa área passou a se chamar Parque Sumaúma e a referida árvore secular que inspirou o topônimo foi preservada, sendo posteriormente integrada oficialmente ao patrimônio ambiental do município. Contam que a árvore foi um presente de aniversário que Dr. Lauro Passos teria ganhado de seu irmão Hélio Passos, por ocasião do seu quinquagésimo aniversário.

A praça é arborizada, com muitas mangueiras, possui como monumento um busto em metal de seu fundador, Dr. Lauro Passos. Considerado um bairro nobre, em seu entorno pode-se observar tanto grandes residências das classes média e alta, como também outras edificações, como escolas particulares, escritórios e clínicas médicas. Mais recentemente, instalou-se ali também o Centro Administrativo da Prefeitura.

A partir do final da década de 80, numa iniciativa do  então prefeito Lourival José dos Santos, a festa de São João, grande evento que anualmente atrai milhares de turistas e apresenta vários dias de grandes shows, acontece no Parque Sumaúma, que na época passa a ser chamado de Arraial ou Arraiá.

Com o passar do tempo, o crescimento e a consolidação do caráter espetacular da festa, é montada uma mega estrutura, com um grande palco principal, com a frente voltada para as principais vias de canalização do fluxo de foliões juninos que para ali se dirigem. Nestes vários anos,  já  apresentaram-se em seu palco grandes artistas como Elba Ramalho, Zé Ramalho, Daniel, Cidade Negra, Santana, Flávio José, Calypso, Trio Nordestino, Alceu Valença, Leonardo, Acarajé com Camarão, Sarapatel com Pimenta, além de muitos outros.

Atualmente, os cidadãos utilizam o referido logradouro público para práticas esportivas, caminhadas ou simples contemplação.

(FONTES: Da casa à praça pública: a espetacularização das festas juninas no espaço urbano, do prof. Jânio Roque Castro)

NELSON MAGALHÃES FILHO

O cruzalmense Nelson Magalhães Filho é artista visual premiado em salões e bienais, pintor, fotógrafo e produtor de filmes; também é poeta, músico e atua no teatro como ator e diretor.

Nasceu em 30 de julho de 1958. Seu avô paterno Turíbio Magalhães escrevia poemas, peças de teatro e atuava nos palcos da cidade de São Félix; sua mãe, Teresinha Santana Magalhães, costureira, e seu pai, Nelson Magalhães, era funcionário público, cronista e poeta.

Nelson Magalhães Filho é um artista que transita pelas várias linguagens, usando a emoção e a experimentação a favor de sua expressão, sendo seu imaginário local de inúmeras referências artísticas, sobretudo, do cinema, das artes plásticas e da literatura. Seu trabalho resulta de escolhas e hibridações, à serviço de experiências existenciais que fazem emergir na arte a estranheza, a obscuridão, a aspereza, sem tréguas.

Foi na sua adolescência que a arte passou a ocupar um lugar maior.

“A arte sempre esteve em minha vida desde a adolescência. A arte para mim sempre foi uma necessidade essencial. Com uma infância povoada por histórias de fantasmas, acredito que a vida se mistura à ficção, e a imaginação surge a partir do desejo, do anseio de relembrar.” (MAGALHÃES FILHO. Entrevista, 30 jun. 2020)

A sua escolha pela arte foi bem compreendida por sua família. Segundo o artista, seus pais o apoiaram quando resolveu estudar Artes Plásticas e ingressou na Graduação na Escola de Belas Artes na Universidade Federal da Bahia – UFBA, em 1980.
Nessa época, as suas pinturas se destacavam pela força expressiva nas aulas, feiras de arte e exposições.

Retornou à EBA em 2002, para cursar a disciplina do Mestrado em Artes Visuais, Pintura Contemporânea, com a artista e professora Graça Ramos, a quem tem muito apreço. Aí também trabalhou por dois períodos como Professor-Substituto das disciplinas Pintura II, entre 2004 e 2006, e Pintura I e Pintura II, entre 2008 e 2010.

A primeira exposição da qual participou aconteceu na Filarmônica Lira Guarany, Cruz das Almas, BA, em 1974. Foi premiado em várias Bienais do Recôncavo (Centro Cultural Dannemann, São Félix, BA) e nos Salões Regionais de Artes Plásticas da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB) e, em 1999, ganhou o Prêmio BRASKEM de Cultura e Arte. Participou de várias exposições individuais e coletivas em diversos Estados do Brasil, na Espanha (Segóvia, Barcelona, Málaga, Valladolid) e em Nova York (EUA).

Para Nelson, “a arte será sempre um gesto inacabado, um processo em movimento inflexível, das redes rizomáticas de criação”.

Expressa-se através de diversas linguagens que influem sobre as suas escolhas e hibridações, à serviço de experiências existenciais que fazem emergir na arte a estranheza, a obscuridão, a aspereza, sem tréguas.

Seu discurso pictórico é assim explicado por ele: “Não acredito na pintura agradável. Há algum tempo meu trabalho é como um lugar em que não se pode viver. […] Cada vez mais ermo, vou minando a mesma terra carregada de rastros e indícios ásperos dentro de mim, para que as imagens sejam vislumbradas não apenas como um invólucro remoto de tristezas, mas também como excrementos de nosso tempo.” (ANJO BALDIO)

Como artista plástico, seu trabalho se caracteriza pela experimentação, entregando-se à gestualidade na pintura; expressa a inquietação do ser diante da vida agreste vivida com dores e sem subterfúgios. A sua trajetória nas artes plásticas rendeu-lhe inúmeros trabalhos, prêmios e exposições, assim como apreciações de artistas, críticos e historiadores da arte, a exemplo de Graça Ramos, Matilde Matos, Justino Marinho, César Romero, Aldo Tripodi, Eduardo Evangelista, Reynivaldo Brito, Juarez Paraíso, Alejandra Hernández Muñoz, e do escritor Wesley Barbosa Correia.

Ao vencer o Prêmio Copene de Cultura, Matilde Matos o considerou “um artista ferozmente independente no seu modo peculiar de pintar sempre as mesmas figuras, conseguindo […] romper com tradições artísticas e se aproximar da vida.” (MATOS Apud CORREIA, 2007). Wesley Correia (2007) chama atenção para a “intensa fragmentação do ser, da sociedade moderna e de tudo quanto o caos urbano pode suscitar” na pintura de Nelson Magalhães Filho, a qual caminha por um processo de desconstrução e renovação a cada série que realiza.

Nelson pode ser compreendido como um dos artistas brasileiros que rompem o espaço com pinceladas fortes, expressivas e despojadas nas quais a gestualidade se afirma. A sua pintura não esconde as suas inquietações profundas. Correia (2007), ao abordar a pintura dele, as associa às obras do pintor norueguês expressionista Edvard Münch, e dos norte-americanos Jean-Michel Basquiat e Jackson Pollock, pela força da gestualidade. De fato, na pintura, o artista tende ao expressionismo e ao informalismo.

A trajetória pictórica do artista prima pela coerência. Sua série Anjos Baldios, de 2010, demostra uma estima especial por refletir sobre o caos, a violência e a desigualdade. Alejandra Hernández Muñoz aponta que pintar várias telas de forma sincrônica, como faz Nelson, pode ser entendido como “uma negação da pintura enquanto objeto autônomo”. São “‘famílias’ de trabalhos com perfis de cor, estrutura e textura cotejáveis”; ainda de acordo com suas palavras, são “anjos baldios, quase ubíquos, definidos pelas camadas de tinta e intangíveis além do suporte da tela”. (MUÑOZ, 2010)

Seu nome está registrado nos seguintes livros: +Cem Artistas Plásticos da Bahia (Galeria Prova do Artista, 2001), Artes Visuais na Bahia (Academia de Letras e Artes do Salvador, 2002), Acervo ACBEU de Artes Plásticas (Associação Cultural Brasil-Estados Unidos, 2003), Revista da Bahia (FUNCEB, 2005).

A atividade literária de Magalhães Filho o acompanha há muito, escrevendo poesias. É um dos fundadores da revista Reflexos de Universos no final dos anos 1970. Tem poemas publicados em jornais, como A Tarde (BA) e Leia (SP), e na revista Exu (Fundação Casa de Jorge Amado).

Um novo universo se abriu quando ele conheceu a poesia de Rimbaud, a literatura de Borges, Cortázar, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Juan Rulfo; a filosofia de Friedrich Nietzsche, os escritores da geração beat, pois as suas referências literárias estão diretamente conectadas ao sentido que dá a seus questionamentos existenciais.

Escreveu alguns livros de poemas: As Luminárias, Anjos Baldios, Imagens do Portão, A Flor do Láudano, A Cara do Fogo e Cachorro Rabugento Morto em Noite Chuvosa (2010). Sobre este, a escritora Kátia Borges comentou: “A arquitetura de seus versos é a dos sonhos. Cada leitor lhes empresta sua lógica. Não há segurança, mesmo quando se parece pisar território firme. De repente, numa frase, prédios semânticos inteiros desabam, “neste tempo perdido no mar negro”, e mitos podem sustentar com apenas um dedo gigantescas estruturas.”

As figuras poéticas de Nelson, conforme Borges, são “poesia que transborda, esparrama, selvagem, cães, tigres, dentes e garras no cotidiano”. Já Lima Trindade menciona que: “Tigre, cachorro, cavalo e anjo são figuras poéticas que se metamorfoseiam constantemente para exprimir uma rebeldia nada redentora” e que o “universo de Nelson é sem estrelas. Uma lua paira e ilumina os corpos sombrios, lânguidos e bêbados de quem satisfez o desejo”. (TRINDADE, 2010)

Nelson também atuou, escreveu e dirigiu várias peças no Teatro do Porão (Casa da Cultura Galeno d’ Avelírio, Cruz das Almas, BA), assim como participou de diversas Oficinas de Teatro (Interpretação) com técnicos da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Nos anos 1990, fez parte de uma banda pós-punk experimental, o Cabaret Neopatético, com Graça de Sena (atriz de seu filme Cartas para Inêz), e Beto Rebelde, influenciada pelo Velvet Underground, Tom Waits, Nick Cave dentre outros. Tocava guitarra meio performática e recitavam os poemas durante as apresentações. (MAGALHÃES FILHO. Entrevista, 30 jun. 2020)

Na adolescência, ia a cinema na cidade de Cruz das Almas. Ainda no curso de Artes Plásticas, na EBA – UFBA conheceu o cinema de arte, e autoral, nas aulas de Estética do Professor “Saja”. Nessa época, morava no bairro dos Barris, na casa da sua tia Olga, e frequentava assiduamente a Sala Walter da Silveira e o cinema do ICBA, no Corredor da Vitória, onde assistiu vários clássicos do cinema alemão e russo; filmes do Andrei Tarkovski, Serguei Eisenstein, dentre outros. É admirador da obra de David Lynch, Wim Wenders, Pier Paolo Pasolini, Werner Herzog, Rainer Werner Fassbinder, Godard, Luis Buñuel e Walter Lima Júnior, dentre outros. (MAGALHÃES FILHO. Entrevista, 30 jun. 2020)

Depois de sua graduação em Artes Plásticas, fez incursões pela videoarte e realizou curtas-metragem de cunho experimental. (MAGALHÃES FILHO, 2019, p. 8) Como vídeo-realizador participou de diversas mostras de cinema e vídeo: Mostra Cinema Fantástico (Ilha Comprida, SP, 2006), Empuxo (Circuito de Arte Eletrônica em Vídeo, Galeria ACBEU, 2005), do IX, X, XI e XII Festival Nacional de Vídeo Imagem em 5Minutos (FUNCEB, 2004, 2005, 2007 e 2008), da VIII Bienal do Recôncavo, dentro da Mostra Paralela de Vídeos, no Centro Cultural Dannemann, em São Félix, BA, em 2006, e do Programa I Nova Produção do Cinema Baiano, dentro da 34ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia, na Sala Walter da Silveira, em Salvador, BA, em 2007. (ANJO BALDIO)

Em 2006, criou o blog Anjo baldio (anjobaldio.blogspot.com) para divulgar seus trabalhos artísticos: peças de teatro, poemas, textos, desenhos, pinturas e filmes. Esse meio é espaço para textos e imagens que dialogam de forma surpreendente. Do título do blog deriva do título de sua exposição Anjos Baldios, realizada em 2015, no Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira, em Feira de Santana; denuncia esse vácuo por onde pairamos.

Entre os prêmios em videoarte que recebeu estão: Menção Especial na X Bienal do Recôncavo (Centro Cultural Dannemann, São Félix, BA), 2010. Nesse mesmo ano, realizou o filme Dolls Angels (2010) que questiona “a relações entre a infância e a perversidade. O boneco do título, que é um objeto de afeto e recordações, é recolocado num contexto marginal” (MAGALHÃES FILHO, 2019).

Ingressou no Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira, Bahia, que concluiu em 2019. É desse período o filme Cadet Blues (04’23″), 2012 (Menção Honrosa no XV Festival Nacional 5 Minutos, 2012, Salvador – BA e Menção Honrosa no I Cine Virada Cultural – I Festival Interno de Cinema e Audiovisual da UFRB, 2012, Cachoeira – BA).

Em 2019, realizou o filme Cartas para Inêz (Trabalho de conclusão do Curso de Cinema e Audiovisual – UFRB, orientado pela Prof.ª Angelita Bogado), um curta-metragem de ficção, no qual homenageia as suas avós (Inêz e Belinha).

(FONTE: http://www.dicionario.belasartes.ufba.br/wp/?verbete=nelson-magalhaes-filho&letra=&key=&onde= )

CRÔNICA SOBRE A ESTAÇÃO DE POMBAL

Conta-nos o Dr. Leandro Costa Pinto de Araújo, através de suas crônicas sobre a Cruz das Almas de antigamente…
A Estação Ferroviária de Pombal, inaugurada em 1881 e reformada em 1930, distante cerca de seis quilômetros do centro da cidade era, naquela época, além de principal ponto de embarque e desembarque de passageiros e mercadorias, também uma opção de lazer muito prazerosa e bem aproveitada pela mocidade local que para lá se dirigia, envolvendo aí passeios e encontros amorosos, principalmente nas tardes de domingo, feriados e dias santos.
Ah… quantas histórias devem ter acontecido, entre encontros e desencontros, idas e vindas, chegadas e partidas!

CRUZ DAS ALMAS ANTIGAMENTE

A Imprensa Popular no ano de 1888, através do “Almanach da Comarca da Cachoeira para o Anno de 1889”, trazia as seguintes informações:

Sobre a Estação de Pombal:

(FONTE: Almanach da Comarca de Cachoeira para o anno de 1889. Diogo Vallasques e Xavier Leal. in Biblioteca Pública do Estado da Bahia; e colaboração de Mateus Santos – Historiador.)

LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA DA SEMANA SANTA

De minhas experiências na infância com a Semana Santa, lembro-me de minha avó materna começar uma série de rituais a partir do Domingo de Ramos.

Naquela época, em toda família católica, quer os membros fossem ou não praticantes no restante do ano, sempre tinha uma avó que impunha o resguardo da Quaresma a ser respeitado por todos naquela casa, principalmente (e sem discussão) na Semana Santa.
A partir do Domingo de Ramos, redobravam-se as rezas, na quarta-feira dava-se início aos jejuns leves, até chegar às interdições do banho, da música laica, das galhofadas, das conversas altas, até a nem pensar em comer carne vermelha na “quinta-feira santa e na sexta-feira maior”, termo que minha avó usava para definir a época na qual Jesus havia sido crucificado. Ah… ligar a televisão e o rádio também era proibido. Para nós, crianças, acabávamos por achar aquele tempo bastante tedioso, mas cumpríamos sem reclamar, temendo o castigo divino.

Porém, de todos os eventos da Semana Santa “da minha época”, o que mais me chamava atenção, e que guardo ainda na lembrança, era a malhação ou queima do Judas, no Sábado de Aleluia! Tinha a leitura do testamento: “O Judas morreu, não teve o que deixar…”
Quem mais lembra?

(Baseado no texto de Andrea Regina Moura Mendes, in A Malhação do Judas: Rito e Identidade)

UMA TRADIÇÃO DA SEMANA SANTA

A Mestra do Samba do Machucador, D. Madalena Carolina de Jesus, faz questão de manter viva mais uma linda e antiga tradição em Cruz das Almas.

Conta-nos a sua filha, Telma Carvalho, também Mestra do Samba do Machucador: “É uma tradição da Família Carvalho, que minha Mãe sempre seguiu, em guardar a Quaresma. Seguindo cada etapa… e no mês que antecede a semana Santa nos dias de quartas-feiras e sextas-feiras, ela sempre seguiu e nos orientou a comer peixe nos respectivos dias e na sexta-feira Santa acontece o tradicional almoço. Mainha sempre reuniu a família para a entrega do pão e vinho e depois o tradicional almoço, seguido de rezas que ela costuma fazer. Ela faz questão que todos os filhos, netos , bisnetos e quem aparecer participem desse momento religioso. Momentos gratificantes que fazem parte de nós. Esse ano foi um pouco diferente por conta da pandemia, realizamos um drive-thru, idéia de uma das netas, Luane Hellen, para evitar aglomeração”.


D. Madalena Carolina de Jesus tem 90 anos de idade, mora em Cruz das Almas, tem 9 filhos, 26 netos, 26 bisnetos e 2 tataranetos.

(FONTE: TELMA CARVALHO in Facebook)