Hoje, 22 de janeiro, completam-se 211 anos desde a criação da Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas, em 1815, por Alvará Régio de Dom João VI. Um passo decisivo que abriu caminho para que aquele arraial viesse a elevar-se como Vila em 1897 e a receber os foros de Município em 1921.
Conhecer o passado é essencial para entender quem somos, reconhecer erros e acertos e cuidar melhor do presente, pensando no futuro do nosso povo.
SOBRE A ORIGEM DO TOPÔNIMO CRUZ DAS ALMAS
A discussão sobre a origem do topônimo Cruz das Almas costuma oscilar entre a explicação histórica e a força do mito. Durante muito tempo, consolidou-se no imaginário popular a narrativa segundo a qual tropeiros, ao pararem diante de um cruzeiro à beira do caminho, rezavam pelas almas dos mortos, dando origem ao nome do lugar. Embora sedutora, essa versão carece de lastro documental. Uma análise mais atenta da história local, especialmente a partir de 1815, aponta para uma origem mais consistente, ligada à criação da Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas e à profunda tradição mariana herdada de Portugal.
O ano de 1815 é um marco decisivo. Foi nesse momento que se instituiu oficialmente a freguesia, conferindo ao território um nome pleno, religioso e juridicamente reconhecido. Não se trata de um detalhe secundário. Na cultura luso-brasileira, os topônimos associados a freguesias raramente eram aleatórios. Eles expressavam devoções específicas, valores teológicos e práticas espirituais bem definidas. Cruz das Almas nasce, portanto, no interior de um universo simbólico cristão, fortemente mariano, e não como simples referência ocasional a práticas de viajantes.
A devoção a Nossa Senhora do Bom Sucesso tem raízes profundas em Portugal. Desde pelo menos o século XVI, a Virgem do Bom Sucesso era invocada como protetora da boa morte e da salvação da alma. O termo bom sucesso não se referia a prosperidade material, mas ao êxito supremo do cristão, a chamada hora feliz, quando a alma alcança a salvação eterna. Essa devoção se espalhou por irmandades portuguesas antigas, como as de Cacilhas e Sabugal, e chegou ao Brasil junto com a formação das comunidades coloniais.
O acréscimo da expressão da Cruz das Almas ao título mariano não é casual. Ele remete diretamente à cena fundadora do cristianismo, em que Maria permanece aos pés da cruz de Cristo. Nesse contexto, Maria é aquela que intercede pelas almas, que sofre com o Filho e, ao mesmo tempo, coopera no projeto da redenção. A cruz, nesse sentido, não é apenas símbolo de dor, mas também de esperança e de salvação. As almas, por sua vez, são o destino último dessa intercessão. Assim, Cruz das Almas neste caso, refere-se expressamente ao título e não a um lugar. A denominação do logradouro veio em seguida.
Quando a freguesia foi criada sob o título de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas, consolidou-se uma leitura espiritual do espaço. O nome da localidade pode ser traduzido como “o maior sucesso possível é a salvação da alma, alcançada por meio da cruz de Cristo, com a intercessão materna de Maria”. Essa concepção está plenamente alinhada com a religiosidade do período colonial e imperial, marcada por irmandades, devoções aos agonizantes e uma intensa preocupação com a boa morte.
Diante disso, o mito dos tropeiros, embora faça parte do folclore e da memória oral, não se sustenta como explicação histórica principal. Ele carece de registros, não aparece nos documentos oficiais e não dialoga com a lógica de nomeação das freguesias da época. Já a explicação ligada à devoção mariana encontra respaldo histórico, teológico e cultural, além de estar documentada em estudos sobre as invocações da Virgem Maria no Brasil, como aponta a obra de Nilza Botelho Megale.
Defender que o topônimo Cruz das Almas tem sua origem em 1815, com a criação da Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas, é reconhecer a força da história institucional e da religiosidade portuguesa na formação do Recôncavo baiano. Mais do que um nome curioso, Cruz das Almas é expressão de uma fé que via na cruz não apenas sofrimento, mas redenção, e nas almas o destino último da esperança cristã. Essa leitura não elimina o encanto das narrativas populares, mas restitui ao nome da cidade a densidade histórica e simbólica que lhe deu origem.


