
Na linda manhã de domingo desse carnaval os clarins de um Bando Anunciador puxam breves e distantes lembranças de um carnaval que passou,de quando instalava e abria o reinado de Momo na cidade de Cruz. Desde antes do Trio Elétrico Carbasa, que não só ia quem já tinha morrido, blocos de caretas (mascarados de identidade secreta), vestidos de estampados pierrôs tomavam as ruas brincando de importunar as pessoas. Estas em troca retrucavam: Careta cadê a greta? Os mascarados respondiam insolentes antes de saírem correndo: Tá no cú de Marieta!

Antes e depois das Batalhas de Confetes, Gritos de Carnaval no Cruz das Almas Clube, bailes no Mercado, na Sociedade dos Artistas, na Euterpe, o Carnaval aterrissava na Praça Senador Temístocles, tudo era alegria que só o espirito do carnaval daquela época sabia dosar na nossa alma gentil. No meio da tarde do domingo o desfile (corso), dos carros enfeitados, entre centenas de foliões rodando os passeios dos jardins, espalhados por toda praça cruzada de serpentinas atiradas dos cordões, blocos, mascarados, Bumba meu Boi (de André?), bicicletas transformadas em navios de papel crepom, chapéus de capitão, bailarinas, melindrosas, índios e cowboys de calças FarWest, cornetas, apitos, bisnagas em forma de bananas cheias de água vendidas nas barraquinhas, vendedores de rolete traduziam nossa festa.
A charanga chupa catarro animou o desfile do alfaiate Davino no cordão “Bebê Chorão”, de andador, vestido de bebê, bico da boca e chocalho nas mãos. Ahh como a gente se perdia nas evoluções rítmicas dos instrumentistas, das cuícas e pandeiros, dos sambistas e passistas traçando passos e estandartes no ar no da Escola de Samba de Leonel Bambá de pernas tortas tê-a-tá e apito na boca ordenando rigoroso a qualidade do samba. (Pena não saber um único nome daqueles remanescentes, só do ex padeiro Tonho Piaba)
A memória ainda não esqueceu o bloco dos Caboclos. Seus integrantes homens, mulheres e crianças apareciam pintados, traços vermelho ocre terra marcavam seus corpos e faces. Cabelos cumpridos, negros, luzidios. Adornos, pulseiras, colares e tangas coloridas (de penas? panos?). Quem são essas pessoas? Vieram de onde? É uma verdadeira tribo de índio ou? Os Caboclos confundiram em mim, a fantasia do carnaval com a realidade fantástica, para sempre.
Durante os dias de carnaval armavam suas tendas de palha no areal do Beco do Cinema. Aí a tribo se arrumava, aquecia seus tambores de couro de cobra, organizava seu desfile e partiam para exibição em redor do grande quadrilátero, no solo coalhado de confetes para desaparecerem sob a luz das gambiaras e da lua artificial lá do céu, por que era (é), carnaval.
Segundo as pesquisas do doutor em geografia pela UFBA e professor da UNEB – Jânio Roque Barros de Castro, até a década de 1970, o carnaval de Cruz das Almas era a maior e mais importante festa em espaço público da cidade, sendo considerado como um dos mais tradicionais do interior da Bahia. Durante os dias do carnaval diversas manifestações culturais se apresentavam em praça pública, como a Marujuda, ternos diversos, burrinhas, zabumbada, bumba-meu-boi, caboclos, afoxés, rodas de samba, grupos de mascarados, blocos de índios, batucadas, pranchas e outras. 
Já o terno no passado era um tipo de bloco carnavalesco no qual um grupo de pessoas se vestia de forma igual para brincar o carnaval. O terno de Reis era ritual religioso e lúdico, enquanto que os ternos de carnaval eram práticas profanas sem conotação religiosa, a exemplo dos ternos de cão, nos quais as pessoas se pintam de preto e saiam dançando de forma irreverente pela cidade, uma prática ainda existente na festa do Senhor do Bomfim de Muritiba,no Recôncavo baiano. Dentre os ternos de Reis mais tradicionais de Cruz das Almas na década de 1950 e 1960, pode-se citar o terno da senhora Abigail (conhecida como Dona Dadinha).
Na década de 1950, um jornal local de Cruz das Almas já destacava a importância regional do tradicional carnaval nos clubes. Nessa época, não havia uma preocupação sistematizada com uma eventual concorrência assimétrica com o carnaval de Salvador, porque muitas pessoas da capital baiana se deslocavam para passar o período carnavalesco em cidades do interior, que realizavam essa festa popular, como Cachoeira e Cruz das Almas.
No final dos anos 1980, com a extinção do carnaval, os trios resistem a reengenharia da prática festiva urbana e aparecem centralizando as práticas festivas nas micaretas (carnavais fora de época) de 1989 e 1990, promovidas pela prefeitura local, fenômeno, também existente em outras cidades da Bahia nesse período.

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