PAULO CÉZAR, O PROFESSOR.

Finalmente, chegou o momento de falar sobre ele, essa figura que fascinou grande parte dos jovens que tiveram a felicidade de frequentar sua classe, tanto no curso secundarista como no curso superior e que o saudoso professor de Biologia Luizinho, se referia ao nosso homenageado como “Mestre”, num gesto de reverência e apreço à sua pessoa. Foi meu professor de Química e Biologia no cursinho, onde babávamos diante de tão boa didática e de tanto conhecimento. Estamos falando de Paulo Cézar, professor e Engenheiro Agrônomo, ex pesquisador da Embrapa – Mandioca e Fruticultura, foi meu orientador de estágio já no meu segundo ano de Agronomia da UFBA. Vários aspectos relacionados a um professor podem ser percebidos pelo aluno (como fala e anda, como se veste, se torce pro Bahia ou Vitória…). Tem aluno que se esquece de estudar e fica apenas tietando o professor durante o ano todo. Veja que nos idos de 1982 o nosso “artista dos livros” queimou a mão quando soltava uma espada de são João. No dia seguinte todo mundo já sabia do ocorrido, pois se tratava de uma pessoa amada pelos estudantes e que despertava também o interesse sobre sua vida extra classe. Na verdade, nossos mestres são simples mortais, do mesmo modo como todos somos, com altos e baixos ao longo da vida, que sofrem na tristeza, que se regozijam na alegria e enfrentam suas lutas no dia a dia. O Professor Weliton queimou a boca, professor Paulo Cézar queimou a mão…. e assim caminha a humanidade. Certa vez, me parece que em 1979 ou 1980, o professor Sebastião (de matemática) trouxe jalecos de Salvador para que os professores do cursinho os usassem durante as aulas. O cursinho tinha um pequeno escritório próximo ao quadro de giz, onde se guardavam pequenos materiais e onde havia sempre um funcionário de prontidão. Foi ali que o professor Paulo Cézar vestiu seu jaleco pela primeira vez e se dirigiu ao tablado para iniciar a aula daquela noite. Ele sempre foi uma pessoa muito desconfiada, e foi assim mesmo, desconfiado, que ele surgiu diante do quadro de giz. Parecia que já sabia o que poderia acontecer quando o vissem assim. Pois, quando ele subiu no tablado e antes de falar qualquer coisa, a estudante Ademildes (Mica de 21), que já estava sentada aguardando o inicio da aula, ao vê-lo deu uma grande gargalhada, apontando para o ilustre professor. Nosso mestre, prevendo o sinistro, voltou para o escritório de ré, feito um raio, tanto que poucos puderam vê-lo de jaleco. Retornou, depois, sem a indumentária, fazendo de conta que nada havia acontecido e iniciando a aula. A suada vida acadêmica gerou visíveis acúmulos em nosso mestre, conduzindo-o à Embrapa e depois à Escola de Agronomia da UFBA. Lembro-me como se fosse hoje, um estudante veterano da Agronomia, preocupado com a aprendizagem, perguntou ao então Coordenador do Colegiado de Engenharia agronômica se o professor que viria a assumir uma dada disciplina era bom. O Coordenador, de pronto, respondeu: “Paulo Cézar já era professor desde o ventre da mãe dele”. Foi aí que percebi que tratava-se do meu antigo professor de cursinho pré vestibular. Tive o prazer de sua convivência em alguns momentos importantes da vida acadêmica e antes dela, o que muito me honra. Aliás, eu e Luizinho fomos lançados no magistério pelo respeitado professor, que não admitia conversinha em sua classe. Era comum dirigir-se à turma que conversava durante a aula, dizendo: “quem não quiser assistir à aula pode sair pela porta, pela janela, pelo telhado… fique à vontade”. Os conversadores, então, se calavam, num misto de temor e respeito ao eterno mestre. Talvez ele não saiba, mas a galera se divertia diante de tão desproporcional esporro. Pronto, já estava garantido assunto para o ano inteiro. Agora, já aposentado, para coroar definitivamente as suas ações pela educação, nos brinda a todos com a identificação de uma nova espécie de mandioca (M. cezarii), publicado no periódico NOVON, do Missouri Botanical Garden, cujo nome específico é dado em sua homenagem (Cézar). Pensei, Paulo Cézar trabalha caladinho, pois achava que, uma vez aposentado, estaria se dedicando apenas às crônicas que escreve para conhecido blog local. Que nada, ele estava trabalhando em mais uma de suas pesquisas. Por esta identificação, outra pessoa, talvez, estivesse soltando foguetes até agora, chamando a atenção de todos para si, mesmo porque é um feito fantástico. Mas, se assim fosse, não seria mais ele, pois trata-se de uma pessoa muito discreta, que detesta holofotes e vai vivendo assim a sua vida, contribuindo para com a sociedade e para com a ciência. E é por isso mesmo, vivendo o seu excentrismo, que arrebanhou muitos fãs em Cruz das Almas e Região, colaborando com a formação de tantos profissionais espalhados pelo mundo a fora. Há três anos conheci uma bióloga na região Oeste do Estado que lembrou dele a certa altura da nossa conversa, e a quem fez elogios enormes, pois teria sido sua colega durante o doutoramento na UEFS. Boa reputação soa bem aos ouvidos, principalmente quando o alvo é uma pessoa de quem gostamos. As pessoas, na verdade, estão permanentemente observando uma a outra, que lhes chamam a atenção por algum motivo. Pois, o juízo a que fazem nosso amado mestre é dos bons, o que faz dele uma pessoa de moral ilibada e de conduta irretocável. Vai aqui a nossa gratidão por tudo que tem realizado e continua realizando, dentro da sua possibilidade, transferindo conhecimento e sendo exemplo de grande figura humana que é. Ave, Cézar!

(Crônica da série RÉGUA E COMPASSO de Zé Moraes.)

Veja também: https://www.ufrb.edu.br/portal/noticias/4195-professor-da-ufrb-e-homenageado-com-nome-de-nova-especie-de-mandioca-silvestre

PROF. GERALDO

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A figura a quem dirigimos a nossa homenagem sempre lecionou matemática no velho e bom CEAT (hoje CETEP). Na verdade, conheci o professor Antonio Geraldo, de matemática, ainda no ginásio, quando o mesmo detinha a posse de um lindo fusca, novinho em folha, cor vermelho nobre. Estudávamos no prédio principal e da altura da sua escada de entrada tínhamos uma vista muito boa daquela generosa área. Pois, era dali mesmo que contemplávamos o lindo automóvel do professor Geraldo, que ficava estacionado, majestoso, sobre o gramado ao lado direito daquele prédio, também imponente. Isso era nos idos de 1975, quando o fusca era a última palavra em tecnologia automobilística. Significa dizer que o nobre mestre andava na moda, embora fosse uma pessoa extremamente simples e de bom trato. Curiosamente, o professor Geraldo não deixava qualquer poeirinha achar assento naquela reluzente pintura vermelha. Era realmente um belíssimo carro. Nunca testemunhei, mas dizem que ele, entre uma aula e outra, se dirigia até o carro pra ver se estava tudo bem, aproveitando para passar a flanela nas laterais daquela última conquista material do competente professor. Excelente professor, não fazia terrorismo em sala de aula nem qualquer outra pressão. Era solidário, amigo, compreensivo e, neste embalo, fazia a diferença e cumpria sua nobre missão. Vejam que, embora fosse uma matéria pouco simpática ao estudante, a matemática era melhor digerida na forma como era ministrada pelo eterno mestre. Ministrava com didática adequada à clientela, comentava coisas engraçadas sem perder o controle da turma, mas mantendo a disciplina da classe. Ao final da aula, o professor Geraldo papeava com alguns alunos que o seguiam pelo corredor daquele prédio, encurtando a distância entre eles. Assim, deixava os alunos à vontade, mas com o cuidado de mantê-los sob controle, ministrando os conteúdos com reconhecida competência e maestria. Incansável em ajudar , nunca gozou uma licença prêmio. Nosso homenageado, de tão popular e querido que era, foi eleito Vereador de Cruz das almas na década de 1980, desenvolvendo a função com seriedade e respeito ao Município. Parte dos seus filhos seguiu a carreira do pai, numa inequívoca demonstração de que a arte de ensinar ainda vale a pena. Tales Miler, o filho mais velho, é professor da UFRB, tendo sido, inclusive, Coordenador da Pós-graduação. Taliane, a segunda, está se doutorando em engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Bem, talvez nem ele mesmo tenha a real dimensão de sua importância no contexto educacional cruz-almense, pois o valor do professor vai além da avaliação de dentro da sala de aula. A sociedade está a observar a sua conduta também no dia a dia, nas questões familiares, honestidade etc. Por isso, sem sombra de dúvida, acreditamos que o professor Antonio Geraldo foi aprovado, na sua caminhada com Distinção e Louvor, servindo de exemplo a tantos quantos testemunharam seu feito, professores ou não, de como fazer o melhor, dentro e fora das salas de aula. Cruz das Almas agradece.

(Crônica VIII da Série RÉGUA E COMPASSO de Zé Moraes)

SOCIEDADE DOS ARTÍFICES

A Sociedade dos Artífices era uma agremiação representativa que reunia os artífices cruzalmenses, ou seja, os trabalhadores artesãos que produziam algum artefato, mediante encomendas recebidas: eram sapateiros, alfaiates, pintores, pedreiros, desenhistas, etc.

Segundo o memorialista Mário Pinto da Cunha, chamava-se “Sociedade Beneficiente dos Artistas” e foi fundada em 27 de setembro de 1947. Funcionou durante muito tempo em prédio próprio onde, além das reuniões de representação da classe, os associados se reuniam também (e com maior frequência) para confraternizações, jogatinas (cartas, dominó, etc) e havia até um time de futebol.

Sua sede localizada na Rua Prof. Mata Pereira, defronte da Praça dos Artistas, um belíssimo prédio, que chegou a ficar em ruínas; mas foi totalmente restaurado em 2005, durante a gestão do prefeito Orlandinho.

LUCIANO FRAGA

Nossos mestres nos ajudam a polir a lente através da qual se enxergará a realidade do mundo, e, para tanto, se esforçam, se desgastam, abrem mão de tanta coisa que poderiam estar a desfrutar, tudo para que cada estudante tenha um acesso mais facilitado ao conhecimento. Mas não é só isso. Toda escola é uma casa de cidadania, local onde se aprende a ser gente, a servir ao outro, a ter sensibilidade tal que lhe permita indignar-se com as injustiças e a regozijar-se com o êxito do outro.

Assim, nessa mesma linha, assumida desde a inauguração deste espaço, buscando sempre o melhor de cada professor, cada qual em seu tempo, a pretensão desse quadro é colocar em destaque a figura do amado mestre, rememorando momentos inesquecíveis, que se eternizaram na vida de cada estudante. Hoje, a bola da vez é o queridíssimo Luciano Fraga. Isso mesmo, aquele sujeito bom de bola e que jogava sempre de óculos de grau. Aliás, estive a observá-lo diversas vezes, nas tardes de futebol no quintal de Nelsinho Magalhães, onde o nosso homenageado dava um show. O professor Luciano desconsertava seus marcadores, às vezes Zinaldo Velame, às vezes Giordano, Japonês e mesmo o próprio Nelsinho. As travessuras do professor Luciano com a bola nos pés eram constantes, fazendo com que o jogador Zé Meia noite fosse dormir com a coluna em frangalhos. E era isso mesmo, ele acabava com qualquer marcador que se aventurasse a impedi-lo de chegar até o gol adversário.

Conheci a família do professor Luciano ainda menino, quando seus integrantes moravam na Manoel Vilaboim. Seu pai tinha uma loja de produtos em couro na avenida Alberto Passos, mais ou menos onde hoje existe uma loja de bicicletas. Sua mãe, dona Maria, matriarca da família, pessoa demais distinta; suas irmãs Amanda (da extinta EBDA) e Maria Luiza (professora) dispensam comentário, já que sempre tiveram conduta notável em suas profissões.

Naqueles tempos não conhecia o talento educacional do nosso querido professor, o que, para mim, iria, mais tarde, representar uma grata surpresa. Pensei: “esse cara pode ser o que quiser”. Claro, bate um bolão e ainda é um professor de matemática de raro talento. Mas, ai, nosso mestre resolve exercer a profissão de Engenheiro Agrônomo, já que havia se formado e precisava mesmo ingressar no mercado de trabalho. Teve que deixar as salas de aula de ir praticar o que aprendeu na Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia, um sonho de todos que ralam para conseguir um canudo universitário. Assim, trabalhou com a cultura do dendê em conhecida empresa de produção de óleo, depois em usina açucareira, onde passou a trabalhar com a cana-de-açúcar. Levou, então, muitos anos longe de Cruz das Almas e das salas de aula. Recentemente, soube que o professor Luciano Fraga está de volta, para a felicidade dos estudantes e da Educação. E haja surpresa: o mestre Luciano é também poeta e escritor, tendo sido colaborador do famoso jornal literário Reflexos de Universos. Provavelmente conheci todas as facetas do amado mestre. Entretanto, não ficarei mais surpreso se descobrir que ele também canta ou dança.

Vai aqui a nossa gratidão a tudo que ele fez (e ainda faz) pela educação cruzalmense, e desejar que Deus lhe dê vida longa para que possamos desfrutar do convívio com essa grande figura humana. Cruz das Almas agradece.

(Crônica da Série RÉGUA E COMPASSO de Zé Moraes)

RÉGUA E COMPASSO

Muitas vezes a necessidade faz as pessoas submeterem-se à condições muito aquém do mínimo necessário para o exercício do seu trabalho. Acordar e partir para o seu posto de trabalho com algum grau de satisfação é fundamental para o serviço se desenvolver a contento e render aquilo que se espera dele. O Régua e Compasso, acreditando que todos, mesmo fora das salas de aula, tem algo a ensinar, navega por águas do cotidiano e da vivência, colocando situações que só a “escola vida”, com todo seu didatismo, poderá ministrar.

Somente hoje, com a evolução do conhecimento, pôde-se ter a real dimensão do significado da qualidade de vida, nos mais diferentes setores ou atuações profissionais. Neste sentido, os debates em torno da saúde do trabalhador, doenças ocupacionais, qualidade de vida e satisfação no trabalho ganharam corpo diante das novas descobertas científicas e do rendimento esperado nos postos de trabalho.

Essas primeiras linhas são para chamar a atenção do leitor a respeito de fatos que nos ocorrem com certa frequência, ou que pelo menos tenha ocorrido no passado. O mais importante é aperceber-se disso. Em finais dos anos 1970, conheci Antônio S. Sousa (in memorian), apelidado de Lombada. Ele trabalhava como ajudante de serviços gerais em um cinema da Cruz das Almas daqueles tempos, mas o conheci como agente de portaria daquela empresa, pois passou a substituir o funcionário anterior, que havia se demitido. Assim, permaneceu por 18 anos, somados os dois serviços na Casa. Eu e mais alguns amigos adorávamos ver os filmes exibidos nas tardes de domingo, e até me acostumei com o Lombada, que estava sempre de prontidão na catraca da entrada, recolhendo os bilhetes e liberando a passagem para a sessão de logo mais. Com frequência, via a forma desrespeitosa com que era tratado pelos jovens que desejavam entrar naquele estabelecimento sem ter adquirido antes o seu ingresso, ou seja, assistir ao filme de graça. O tratamento hostil e as ameaças de agressão eram comuns, já que ele não cedia às pressões daquele público e porque ele trabalhava sozinho. A ousadia era tão grande que alguns se arriscavam a pular a pequena mureta que separava a parte interna e externa daquele local. Quando Lombada corria para tentar impedi-los, abandonando a catraca, um outro grupo saltava pela catraca. Trabalhar naquelas condições era realmente um inferno. A sala de exibição vivia lotada, mas vários não apresentavam o ingresso.

O proprietário do cinema preocupava-se com a baixa renda obtida, mas colocava a culpa sobre a portaria. Nos dias de hoje seria muito difícil que um trabalhador se submetesse a tamanho sofrimento no local de trabalho, e onde teria que, além de realizar seu serviço normal, exercer o papel de segurança. Lombada sempre foi um homem pacato, mas tinha que fazer “cara de mau” diante dos insultos que lhes eram dirigidos. Todavia, fazia o que era necessário para manter-se no serviço, já que ali estava a sua sobrevivência, era ali que ele ganhava o seu sustento, mesmo sem a necessária carteira assinada. A necessidade o fez permanecer ali por todo aquele tempo. Imagino o estado emocional desse homem, sabendo que no dia seguinte seria igual ou pior que aquele.

Até pouco tempo achava que já tinha falecido, mas contente fiquei em saber que ele estava bem vivo, criado sete filhos e de bem com a vida, aos 74 anos. Fui até sua casa no Bairro Sorriso, conversamos um pouco e vi que não guarda qualquer mágoa daquele passado. Contou que ao deixar o trabalho no cinema em 1980, passou a trabalhar na Prefeitura Municipal de Cruz das Almas, onde se aposentou. Assim, ele nos deixa um exemplo de superação na luta pela sobrevivência, mesmo naqueles tempos difíceis, nos quais sequer se pensava em saúde do trabalhador, segurança do trabalho e qualidade de vida. Infelizmente, Lombada nos deixou no dia 13 de janeiro do corrente ano, deixando um exemplo de perseverança para todos que desanimam diante de qualquer dificuldade na vida.

(Crônica da série RÉGUA E COMPASSO de Zé Moraes.)

JOÃO GUSTAVO DA SILVA

Foi vereador (1954 a 1958), poeta, escritor e jornalista. Não nasceu em Cruz das Almas, mas amava esta terra como um Cruzalmense. Aqui casou-se e teve filhos. Credita-se a ele a luta para a vinda da agência do Banco do Brasil para Cruz das Almas.

Nasceu em 12 de fevereiro de 1918 e faleceu em 21 de fevereiro de 1968. Eis alguns de seus poemas:

LENDO COELHO NETO.

Ser mãe é andar chorando num sorriso!

Ser mãe é ter um mundo, e não ter nada!

Ser mãe não é padecer num paraíso!

E ser pai, o que será?…

Ser pai é ser da via férrea os trilhos!

É ser o trem, é ser o maquinista.

Buscando vida para mãe e filhos!

(soneto extraído do Jornal Nossa Terra/1955)

QUANDO…

Quando ao desfalecer do dia as andorinhas

Em bando, pelo espaço, arribam velozmente…

E que lá no ocidente ínfimas nuvensinhas,

Formam o multicor cenário do poente,

Quando na densa noite em olhares diretos,

Do céu a ardente estrela infiltra-se nos lagos,

E que na mata escura a festa dos insetos

Vibra de amor, de sons e naturais afagos…

(Jornal Nossa Terra/1955)

(FONTE: Ângela Machado; Aluno Matta Santana)

O VAPOR DE CACHOEIRA

Apesar de pouco falado em Cruz das Almas, mas o “VAPOR DE CACHOEIRA” foi parte importante da história e do desenvolvimento econômico da nossa cidade. Muitos ainda guardam na lembrança, e com saudade, as viagens de trem ou de marionete até Cachoeira e, de lá, até Salvador navegando pelas águas do Paraguaçu embarcados no lotado “Vapor”.

Em 04 de outubro de 1819, portanto, há exatamente 201 anos, acontecia a viagem inaugural do “Vapor de Cachoeira”, onde navegara quase dois séculos em águas baianas. Esta foi a primeira embarcação a vapor a circular na América do Sul, foi uma revolução para a época. Ao longo das décadas seguintes esse meio de transporte impactou significativamente a vida dos baianos, não só pelo aspecto econômico mas, principalmente, pelo que ele representou para a vida social e cultural da Bahia, entre o século XIX até meados dos anos 60 do Século XX.

Navegando pelos vales verdejantes do Recôncavo, por entre ruínas de fortes e conventos da era colonial, foi testemunha do apogeu dos engenhos de açúcar e , em seguida, transportou as riquezas geradas pelo cultivo e industrialização do fumo, que fizeram a força econômica de Cachoeira e São Felix até a década de 1930.

O Vapor de Cachoeira levava produtos manufaturados até o Recôncavo e daí eram levados em tropas de burros – e mais tarde de trem – para o Sertão. Na rota inversa, trazia para o litoral tudo o que o sertão produzisse. No Império, foi o trem, que em Cachoeira interligava-se ao transporte fluvial, o grande impulsionador do desenvolvimento.

Imaginemos quantos romances (namoros, noivados e casamentos) nasceram, em face do trajeto Cruz das Almas/Cachoeira/Salvador e que devem estar unidos até hoje.

Dr. Orlando Pereira, médico cruzalmense nascido em Cachoeira, relata-nos: “Quando estudante no Gynazio da Bahia, era em 1943 o único transporte para Salvador. Morava em Cachoeira e viajei bastante no navio Paraguaçu , guiado pelo comandante Dedé. Quantas vistas lindas e as saudades que nos deixou …. dá-me vontade de chorar. Obrigado pela lembrança .
Importante dizer que minha única namorada, que veio a ser a minha saudosa e querida esposa, namoramos bastante no “ Vapor que não navega mais no mar”.

Também, Cyro Mascarenhas conta-nos: “Uma boa lembrança. Ainda me recordo da minha primeira viagem a Salvador, em 1955, chegando à Baía de Todos os Santos e avistando ao longe a cidade iluminada. Cena inesquecível.
A chegada a Cachoeira para pegar o vapor não era muito fácil. Tinha a marinete de Baratinha.
O pior é que o navio dependia da maré cheia para sair de Cachoeira, senão encalhava. A cada dia o navio saia em hora diferente porque dependia da maré. Às vezes saímos tarde da noite de Cruz para pegar o navio que partia de Cachoeira de madrugada. No meio da rota parava em Maragogipe, onde entravam novos passageiros. Quando chegava na assim chamada “meia travessa” (ponto que o Paraguassu desemboca no oceano) o navio “jogava” muito. O balanço era tanto que muita gente enjoava, não raro vomitando. A chegada no Porto era um alívio.”

Edson Chiacchio recorda-se: “Década de 50. Pegava a Marinete de Artur Martins, saindo para Cachoeira, passando por Cabeças, Muritiba, S. Félix, a ponte a atravessar e o destino final…
Era uma grande aventura para um garoto de 10 anos…
Era maravilhoso! A viagem até Salvador durava 6 horas, passando por Nagé, Coqueiro, Maragogipe e São Roque… até aí tudo tranquilo. Quando chegava ao mar, Baía de Todos os Santos, na meia travessa, o navio jogava muito, balançava demais….Era muita gente mareada e vomitando…
Enfim chegávamos a Salvador…”

Assim, o “VAPOR DE CACHOEIRA” tornou-se um mito para o povo do Recôncavo, pois fomentou a economia entre as regiões litorânea e sertaneja da nossa Bahia.

A navegação do “VAPOR DE CACHOEIRA” teve sua linha desativada no ano de 1967.

Vamos resgatar a sua história, pois o que dela resta é apenas saudade…

(Fonte: Página Bahia… terra do já teve in Facebook)

EUDALDO GOMES DA SILVA

Estudante da Escola de Agronomia da UFBA, em Cruz das Almas, militante revolucionário contra a ditadura, era conhecido pelos militares como guerrilheiro, membro da VPR, assaltante de banco etc.

Em 15 de junho de 1970, fora banido do Brasil com um grupo, por ocasião do seqüestro do embaixador da Alemanha, Von Holleben, com mais 39 presos políticos.

Retornando clandestinamente ao Brasil , foi morto no dia 7 de janeiro de 1973 juntamente com Pauline Reichstul, Evaldo Luís Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva e Soledad Barret Viedma em uma chácara no loteamento de São Bento, no município de Paulista, em Pernambuco. O caso ficou conhecido como o Massacre da Chácara São Bento.

(FONTE: Ângela Machado in FOTOS ANTIGAS DE CRUZ DAS ALMAS/FACEBOOK)

GRAÇA SENA

Maria das Graças Carneiro de Sena ou Graça Sena como é mais conhecida, nasceu no dia 25 de abril.

Assistente Social, doutorada em Sociologia, trabalhou por muitos anos na Embrapa Mandioca e Fruticultura e atualmente e empreendedora proprietária de um restaurante vegano.

Ativista feminista, é integrante do Coletivo Jacinta Passos; e militante cultural, é uma das fundadoras da Casa da Cultura Galeno D’Avelírio.

Eis Graça Sena por Graça Sena:

“Feirense de nascimento, cruzalmense por adoção. Em Cruz das Almas vivi metade da minha vida, criei filhas, cultivei amigos. Perdi alguns, ganhei afetos e desafetos. Mas é aqui, nessa cidade sem rios, que rio e, às vezes, choro rios.

Eu e as Artes…

Na Poesia, publiquei meus primeiros poemas em cadernos literários e participei de várias coletâneas com outros poetas: Pacto de Gerações; Célula-doce e Corpo; Imprevista Claridade; Necessariamente Agora, em parceria com Gláucia Guerra; Conteúdo Suspeito, com Lita Passos; Laranja na Chuva das Urânias, com Nelson Magalhães Filho. Fui colaboradora e publiquei no jornal Reflexos de Universos.

No Teatro, escrevi os textos: A noite; O pesadelo de Lilith; As Cartas. Atuei em grupos de teatro, em Feira de Santana e em Cruz das Almas. TEAM. TEF, Os Sapatos Marrons do Anonimato e Cia. dos Anjos Baldios (atriz e diretora).

Cinema e vídeo: Atuei no curta Mais uma História de Amor, dirigido por Nelson Magalhães Filho; dirigi o documentário A Arte das Operárias.

Na Música, em Feira, participei de festivais (compositora e intérprete). Com Beto Rebelde e Nelson Magalhães F. formei o Cabaret Neopatético, banda de rock/folk/blues.” [Mais recentemente, integrou o grupo musical Operárias da Arte.]

FONTES: https://www.blogger.com/profile/02009439543811583736 ; http://www.seagri.ba.gov.br/content/maria-das-gra%C3%A7as-carneiro-de-sena

BANDA SARAPATEL COM PIMENTA

No início da década de noventa, em Cruz das Almas, Bahia, engenheiros agrônomos amigos, aficionados pela cultura regional (música, dança, culinária, etc.,) reuniam-se periodicamente em celebração aos bons momentos que a vida proporciona tocando xotes, baiões, cocos, xaxados, e demais estilos musicais que costumam alegrar as nossas noites nordestinas. A denominação da banda surgiu quando esse grupo de amigos comia um delicioso sarapatel (Iguaria típica da região), bem apimentado, durante uma tocada, e alguém sugeriu que fosse criado um nome que os identificasse. Assim foi batizado de Sarapatel com Pimenta até então uma brincadeira (1994).
Àquela época o Sarapatel com Pimenta contava com Zé Moraes como um dos vocalistas do grupo. Zé, professor e agrônomo de renome na cidade, posteriormente veio a ser vereador em Cruz das Almas e deixou o grupo. Os que frequentavam o famoso Bar do Um Real com certeza lembram-se bem dessa época. O sucesso foi tanto que o grupo de forró precisou ampliar sua estrutura e veio a tornar-se uma banda. Bruno Silva assumiu os vocais principais da banda, tendo em vista que desde o início participava das “reuniões de forró” com os seus amigos. E, a agora banda Sarapatel com Pimenta, por alguns momentos contou com algumas vozes femininas ao lado da voz de Bruno, entre estas vozes destacamos a cantora Cíntia (hoje com um trabalho gospel muito bem elogiado), que no período de licença maternidade foi substituída por Meyre Kal.

A cantora Meyre Kal e Bruno Silva dividindo o palco do Cruz das Almas Clube na década de 90
Bruno Silva, que nasceu em Cruz das Almas, sempre nutriu certo fascínio pelas obras de Luiz Gonzaga, Mestre Lindú, Jackson do Pandeiro e Dominguinhos. Este jovem cantor é neto do saudoso Benedito Vermelho, um dos “químicos” locais, pioneiro na confecção de “espadas” – artefatos pirotécnicos indispensáveis nas festas juninas cruzalmenses.
Sarapatel com Pimenta dividiu os palcos com astros da música brasileira como Elba Ramalho, Leandro e Leonardo, Flávio José, Zé Ramalho e outros. Bruno destaca-se pelo carinho e responsabilidade com que encara a nossa música, e assim, estudou, aprimorou-se, estreitou laços de amizade com velhos mestres do estilo como o pernambucano Félix Porfírio.
Com cerca de 10 trabalhos gravados entre registros ao vivo e em estúdio, em 2011 a banda lança o CD intitulado “Vento Solidão” e apresenta regravações e canções inéditas. Além de Bruno, o Sarapatel com Pimenta conta com grandes músicos como Romero na sanfona, Sid Bemtivi no baixo, Léo Nariga na zabumba entre outros.
Aos que hoje tem a oportunidade de ver Bruno Silva e Sarapatel com Pimenta nos palcos, principalmente de Cruz das Almas, percebem a linda magia que a banda tem de interação com seus fãs.

(FONTE: https://meyrekal.blogspot.com/2011/07/personalidade-cruzalmense-bruno-silva-e.html )