Fonte do Doutor 2
FONTE DO DOUTOR retratada em tela pelo pintor Zeca Salomão

Importante lembrar que, antes da chegada do sistema de abastecimento de água encanada da EMBASA, a população de Cruz das Almas dependia exclusivamente de fontes naturais para obter água potável. Entre elas, destacamos aqui a Fonte do Doutor, localizada em área que pertencia à antiga Fazenda Bonsucesso, que já no século XIX era propriedade do Coronel Joaquim Ignácio Ribeiro dos Santos, pai do médico Dr. Ribeiro dos Santos, nascido em 1851. O nome do local surgiu justamente do costume do doutor em banhar-se ali, nas primeiras horas da manhã, um hábito que atravessou o tempo e batizou um dos espaços mais emblemáticos da história cruzalmense.

O acesso à fonte se dava por um caminho de terra que partia de onde hoje está a pracinha da Rua da Jurema e os fundos do bairro Lauro Passos, e que adentrava os limites da fazenda. A Fonte do Doutor era um ponto de vital importância para a cidade, pois abastecia inúmeras famílias em um período em que ainda não existiam encanamentos nem reservatórios urbanos. A lembrança dos adultos que, à época eram crianças e que, entre brincadeiras, acompanhavam os pais na busca pela água e banhos, fixaram na memória afetiva a ideia de que ali era também um ponto de lazer. Talvez venha daí uma possível vocação turística do lugar.

Foi na década de 1930, durante a administração do prefeito Dr. Luiz Eloy Passos, que a Fonte do Doutor passou por uma ampla reformulação. Foi construída uma grande caixa d’água para armazenar o líquido coletado diretamente da nascente, equipada com banheiros masculino e feminino, torneiras laterais para enchimento de potes e barris, bacias de cimento destinadas à lavagem de roupas e até mangueiras para a limpeza de automóveis. A estrutura, moderna para os padrões da época, marcou um avanço no saneamento local e consolidou a fonte como principal fornecedora de água potável do município. Essa paisagem ficou eternizada no retrato pintado por Zeca Salomão, artista plástico que registrou o cotidiano do lugar.

A rotina na Fonte do Doutor envolvia personagens e costumes típicos de uma Cruz das Almas ainda provinciana. O encarregado do espaço, conhecido como Martelo, mantinha um pequeno barraco onde vendia cachaça aos frequentadores, fossem eles clientes do banho ou apenas da bebida. Os aguadeiros, liderados por Bebiano, distribuíam a água pelas casas em barris, enquanto a população usava as cisternas para outros fins. A ladeira de barro vermelho que dava acesso ao local tornava-se escorregadia nas chuvas, dificultando a subida de pessoas e veículos, que muitas vezes pernoitavam por não conseguirem vencer o trajeto.

Anos mais tarde, por volta da década de 1960, a área então já era propriedade do Dr. Lauro Passos. A Fazenda Bonsucesso mantinha um laranjal, estábulo para vacas leiteiras, criação de cavalos de raça e um jardim repleto de angélicas e outras espécies florais. 

Com o passar dos anos, a qualidade da água da fonte começou a se deteriorar. O início da poluição, supostamente, foi atribuído à construção, na parte superior da fazenda, de uma espécie de banheiro para banhos de carrapaticida para os cavalos de raça, o que comprometeu o manancial. A água perdeu a limpidez e o sabor originais, tornando-se viscosa e imprópria para o consumo. Mesmo assim, por algum tempo ainda se usava a água da fonte, até que o fornecimento regular da EMBASA, na década de 1970, encerrou definitivamente a atividade dos aguadeiros e o abandono da fonte foi inevitável.

Anos depois, o Grupo Ecológico Copioba fundado em 1990, iniciou um movimento liderado pelo professor Eduardo Lacerda Ramos, que propunha um projeto de revitalização da Fonte do Doutor. Entre as ideias, estava a criação de um lago que se estenderia desde o antigo matadouro até além da nascente, resgatando o potencial paisagístico e histórico do lugar. Embora a proposta não tenha sido executada, representou uma tentativa simbólica de reconectar a cidade à sua memória ambiental.

No entanto, o escritor memorialista Alyrio Mendes, lembra-nos em suas crônicas que a Fonte do Doutor ficou oficializada como referência do município depois da ação urbanizadora promovida pelo prefeito Dr. Luiz Eloy Passos, na década de 30, mas não foi a única fornecedora de água potável para a cidade. Existiam outras fontes na época, com água de boa qualidade também, mas que o estrelismo da Fonte do Doutor, que chegou a obter notoriedade estadual, acabou ofuscando a lembrança nos dias atuais. Por exemplo, existia a Fonte de Zé Pinto, de Mundinho Mangueira e de Yôga. A fonte da Barrica na atual Vila Guaxinim e a Fonte da Nação da Sapucaia ainda existem. E outras fontes que eram um misto de tanque para o banho e para lavar roupas: Zé Pinto, Seu Ângelo e Donana de Pixú. Os tanques de João Gonçalves, de Seo Cazuzinha e o tanque de Thomé eram exclusivamente para banhos. Tinha também um banheiro no Pulo do Bode na casa de Pedro Careta, um atrás do campo na Baixinha da Vitória e outro na Rua São Benedito. Esses banhos eram “pagos”.
E para entender a localização geográfica da época, Seo Alyrio brinda-nos com o seguinte glossário:

  • Zé Pinto: ficava em Brejinhos, entre a Tabela e a Estação Velha ou de Pombal;
  • João Gonçalves: na Assembleia, próximo ao lago do Clube de Campo Laranjeira;
  • Seu Ângelo: nas imediações da Banguela, Praça de Esportes;
  • Seu Cazuzinha: fundos de onde hoje é o Solar Eventos;
  • Tanque de Donana: onde hoje é o bairro Areal/Miradouro; e,
  • Thomé: no final da rua Estrada de Ferro com a Escola de Agronomia, atual UFRB.

A Fonte do Doutor, contudo, destacou-se a ponto de se tornar símbolo municipal, mencionada em crônicas e lembranças como um marco de progresso e sociabilidade. Mais do que um antigo reservatório, ela representa o elo entre a história do abastecimento de Cruz das Almas e a afetividade de gerações que fizeram da busca pela água um rito diário. Hoje, sua memória continua a inspirar reflexões sobre a importância da preservação do meio ambiente, dos recursos hídricos e do patrimônio histórico como expressão da identidade local.

Atualmente, a Fonte do Doutor é uma unidade de conservação rodeada pelo ambiente urbano e que  encontra-se bastante alterada devido à ação antrópica, incluindo atividades de desmatamento, queimada, despejo de lixo, introdução de espécies vegetais exóticas que se naturalizaram e se multiplicam progressivamente, dentre outros.

Conforme o art. 213 da Lei Orgânica do município e observando-se o Art. 215 da Constituição Estadual, é uma área de preservação permanente. De acordo com a adequação do Plano Diretor do Município, Lei nº 10.257, de 2001, esta Fonte é considerada Zona de Proteção Integral (ZPI) por ser uma área de importância ambiental e [até] paisagística da cidade que necessita de ações de preservação e recuperação.

imagem fonte
http://br.geoview.info/helio_pereira_passos_carregando_agua_da_antiga_fonte_do_doutor_cruz_das_almas_bahia,37896864p       FOTO ACERVO: Lauro Passos

7 respostas para “A FONTE DO DOUTOR”.

  1. Avatar de Suia
    Suia

    Gostaria de saber se esse menino segurando a égua seria Ze de Bebiano?
    Ele era meu bisavô e gostaria de informações sobre ele. Desde já agradeço!

    Curtir

  2. Avatar de Edisandro Barbosa Bingre

    Sim. Na verdade, exatamente, fica na divisa entre o Vilarejo e o Lauro Passos.

    Curtir

  3. Avatar de Adriana Guimarães Barreto de Alencar
    Adriana Guimarães Barreto de Alencar

    Olá alguém sabe me informar se esta fonte do doutor é onde fica hoje o bairro do Vilarejo? preciso fazer um trabalho da UFRB.

    grata,

    Adriana
    adrianagbalencar1712@gmail.com

    Curtir

  4. Avatar de Suia
    Suia

    Ola Boa tarde!
    Gostaria muito de saber se essa criança séria Ze de Bebiano que esta segurando o animal?

    Curtir

  5. Avatar de Edisandro Barbosa Bingre

    Bela recordação e valiosa contribuição! Grato!

    Curtir

  6. Avatar de Geraldo Almeida
    Geraldo Almeida

    Mais uma bela recordação de minha fase cruzalmenses. Uma das atividades lúdicas de minha infância era, depois dos babas no campo de terra batida da sede dos escoteiros, ir com a turma tomar banho na fonte do doutor. Naquela época quem tomava conta era seu Nininho e dos aguadeiros lembro de seu Inocêncio que era também carcereiro da delegacia de polícia.

    Curtir

  7. Avatar de Gilson
    Gilson

    Como bom Cruzalmense, lembro-me bem da Fonte do Doutor. Tinha o Sr. “Mano da Água” que entregava água em uma carroça em vários pontos da cidade, Ele entregava água no moinho de café MENDISAN, de Nelinho, onde a minha tia Nirce trabalhava. Lembro-me com saudades.

    Curtir

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.