
Sou apenas memória. Demorei para perceber. Não se trata de melancolia ou nostalgia, mas de uma compreensão arrebatadora acerca da minha existência e da relação que estabeleço comigo. Sou o resultado das memórias que construí, nada além disso. À exceção deste exato segundo, nada é genuinamente meu, senão as memórias do que vivi, a luz dos locais que conheci, o cheiro das pessoas que amei, o gosto das injustiças que sofri. Não deixa de ser paradoxal: a construção da memória se dá no agora, mas a vida é sempre retroativa. A retrospectiva do meu caminho é quem dá o tom à minha vivência. Molda o meu olhar; impulsiona ou retarda meus passos; determina o estado geral de emoções que em mim habita. Cada memória é uma eternidade particular, que continua a irradiar seus efeitos ao meu espírito. Para mim, felicidade, infelicidade e indiferença frente à vida são basicamente os resultados da soma geral dos efeitos das minhas memórias. Descobri, com o tempo, se tratar de mera questão matemática. Quanto mais coleciono memórias, mais sou tomado pela energia irradiada. A partir daí, descobri minha missão diária: colecionar as memórias pelas quais quero ser amparado e lembrado pelo tempo.
Baseado no texto de @escrevoporquecura
