O texto a seguir, autoria de Marcelino Santos Reis, apesar de longo, não é enfadonho. É um precioso registro histórico social e urbano da segunda metade do século XX de Cruz das Almas.

“Nascida siamescamente com a rua do Jenipapo numa formação angular, a rua da Estação por sua sinuosidade parecia um leito de um rio. Um rio de leito seco onde podia-se movimentar-se livremente a favor e contra corrente com a mesma facilidade.
Nascida e batizada como rua da Estação e registrada como rua Rui Barbosa. Assim era como suas irmãs contemporâneas. Rua do Jenipapo – Cel JB da Fonseca, Dos Poções – JJ Seabra, da Vitória – Manoel Vilaboim, do Itapicuru – Desidério Brandão … e assim sucessivamente. As ruas levavam o nome de condução ao logradouro.
Nasci na rua da Estação na casa número 167, mas como morava de aluguel, morei em outras muitas ruas. Todavia, como minha saudosa mãe costumava dizer, meu umbigo fora enterrado na rua da Estação. Eu saía da rua da Estação, contudo, a Rua da Estação nunca saiu de mim. Mudasse pra onde mudasse, lá estava eu colado com meu umbigo, afinal, a relação umbilical, é coisa séria.
Vivi essa ralação até os vinte e quatro anos quando fui pra São Paulo.
As recordações desse tempo pululam em minha mente.
“No início da rua o comércio de Zacarias que comprava ferro velho e vendia de tudo, desde cocada de côco, borracha pra badogue, fumo de rôlo, os comestíveis tradicionais e gás (querosene Jacaré) usado nos candeeiros de iluminação. Bem próximo havia um senhor chamado Aprígio, com jeito sério e muito bem respeitado, que era professor leigo. Seguindo, era a entrada da fazenda de Marocas mãe da professora Antônia Eloy (minha professora de ginásio).
Logo após a entrada da fazenda era a casa do senhor Simpliciano pai de Roque, Hugo, Antônio Leite e outros, e também pai de Sissi filho de criação.
Do outro lado da rua (o francês diz: De l’autre côté de la rue – não resisti), morava o casal dona Neném e seo Cula com sua numerosa prole, todos gente boa, Manoel Cesário tinha uma barbearia na Av. Alberto Passos tal qual a alfaiataria de seo Simpliciano, seo Mário e dona Antônia pais Leda, Leonel, Luciano Borba e esqueci nome do outro (descortesia apelidá-lo), Tonico irmão de seo Dinho, os Tupinambás que moram até hoje e Agnelo onde antes morou João Duzentos armador de ferragens (hoje bar de Camelo), dona Alfa, a família do professor Manoelito Sá, também seo Noberto e dona Inês – o melhor pé de moleque do mundo – casas demolidas para dar passagem a rua da Malva.
Atravessando a rua, vinha dona Maria Cândida famosa por seus quitutes e mingaus,
mãe de meus saudosos amigos Carlos Silva – Pio, José Carlos – Zezeco, Claudionor – Buru meu compadre, padrinho de batismo de minha filha Tatiana (muita emoção), sem deixar de citar a família dos detefons herdado do pai (mata mosquito – seo Antônio e dona Hermínia e filhos Zeca, Joel, Renil, Nonô, Cremilda, Carlinho e Missinho. Bem próximos tínhamos Clodoaldo (Balôgo) músico, sapateiro famoso por suas mentiras. A gente se reunia pra ouvi-lo contar suas broncas, e ai de quem risse de seus causos.
Ah! Dona Geni mãe de Toínho Babão, Artuzinho, Noêmia, Noélia. Se retava quando a molecada (inclusive eu) a chamava de sapo boi. Seo Rosa, o esposo que trabalhava no IPEAL – Instituto de Pesquisas Agronômicas do Leste, era de uma paciência de Jó, gostava de morder uma “erva doce”. Devido as pertubações, se mudaram da casa vizinha a casa de Pedro Lamite e foram morar na mesma rua, vizinhos ao bar de Jorge na entrada do CEAT, também vizinhos a dona Moema mãe de Moacir, professora Nancy, Pedro (Piroca), Tote and company. Dona Moema, pra quem não sabe, também morou na casa de esquina da rua da Estação com a rua Possidônio Costa, plantava fumo no IBF – Instituto Brasileiro do Fumo. Dava um duro danado.
Quem não se lembra de Galo?
Também morou em dois lugares na rua da Estação. Em frente a loja de seo Patrocínio, e vizinho de Agapito da parceria com Darírlio no salão Dois Amigos. A esposa de Galo, conhecida por dona Jóvem, era uma senhora com ares aristocráticos que não perdia u’a matinée no cine Glória .
Minha vizinha da casa 167 era dona Inês, que vendia pães da padaria de Honorato, sendo o pão sovado o meu preferido. Dona Inês tinha uma voz afinadíssima. Tinha o costume de sentar-se as tardes a porta da rua, toda empoada de Cashmere Bouquet.
Dona Inês e dona Isaura são as pessoas mais próximas de minha lembrança juvenil.
Dona Isaura casada com Preto Maia músico da Euterpe e eletricista da Prefeitura; era a pessoa que tomava conta de mim, enquanto minha mãe trabalhava no armazém de fumo de Dr. Ramiro Passos.
Mudou-se para a rua da Vitória, bem em frente ao comércio de Primo Silveira, esquina da Travessa da Bandeira. Mesmo adulto, quando ia visitá-la, era o mesmo carinho de sempre.
Onde é o comércio de Turíbio, era seo Patrocínio quem comandava, a venda, o armarinho, loja e livraria onde se vendia os livros didáticos de Olga Pereira Metigg.
A casa mais bonita, do trecho inicial da rua até a Praça dos Artistas (artífices), era a casa de dona Regina da Laranjeira, mãe de Luís que casou com a professora Marly, e salvo engano, a irmã casou-se com Dr Adailton que foi diretor do CEAT no final dos anos sessenta. Parece-me que a casa conserva a mesma estrutura até hoje.
Mas voltemos aos moradores. Os moradores são a alma da rua. Fazem pulsar o coração, dão vozes e mesmo quando dormem, no silêncio, ouve-se alguns roncos.
Seo Situ, o original, era um eterno crianção. Dona Miúda sua esposa abria o portão da varanda pra gente assistir Moacyr Franco Show, e ainda nos dava deliciosas bolachas de goma.
Aí vinha Izídio (Coelho alfaiate) parecidíssimo com nosso Grande Otelo, dona Carmelita mãe de Pimentel. Não conheci o pai de Pimentel. Ouvi dizer que tivera un infarto fulminante numa tarde de domingo enquanto apitava uma partida de futebol no campo do Alberto Torres.
Não poderia deixar de citar seo Antonio (bago mole) pai do espadeiro Vaúca e do conhecidíssimo Maxixe (uma via crucis na conquista do canudo).
Clementino Keleu com seu caminhão transportando romeiros para Bom Jesus da Lapa e viajando toda segunda feira para Feira de Santana para pegar mercadorias, são as lembranças mais claras.
Como no início falei que a rua parecia um rio, chegamos no ponto onde por formação geográfica havia a formação de um delta da rua do Hospital (Professor Mata Pereira) desembocando na rua da Estação, formando também uma ilha.
Há quem pense, que a rua da Estação só vai até ali, talvez porque o trecho que dá continuidade seja menos agitado.
A casa de seo Sílvio barbeiro era o final dessa primeira etapa. Ele era míster em jogar puia (tiradas humorísticas de duplo sentido) muito comum a época. Aí vinha um recuo de casas pertencentes ao seo Fausto, onde morava Filipe músico da Lira, dona Adélia de Chico Boi, o casal Benedito Agonia e dona Mariinha com os filhos gêmeos Zeca (Penga – SAUDADE), Zequinha (Careca), Clarice, Nice, Jorge e Isa, que também se mudaram de casa, mas continuaram na mesma rua, em frente a cantina de Getulinho pai de meu amigo Evangivaldo Maia.
Próximos, morava e continua, a família de Moisés Azevedo, seo Nenenzinho pai de Dulce e Dênis Vidal meus colegas de primário, sem esquecer dona Teodora Preta quituteira que tinha uma barraca de comida ao lado do mercado e seu fiel escudeiro Estevão apelidado pelo capitão Aurino de ¨cara chata¨. Dona Nenzinha rezadeira, Maria de Osório amicíssima de dona Mariinha e a família de meu grande amigo irmão Zinaldo Santos irmão de Elienay e Anami (saudade).
Na entrada da fazenda de seo Fausto, havia uma Santa Cruz.
Prosseguindo era um vazio de habitação. Dava pra se ver os bois pastando protegidos por uma cerca tosca, até a rica casa de Edgard Fausto. Uma bela casa recuada com muro em ondas verticais, ornado com pedras portuguesas que também serviam extensivamente de decoração ao passeio.
No lado oposto, era a casa de dona Lourdes mãe de Edinha, Ednice vizinhos de Mané Boquinha capoerista e dona Chica famosa por participações nas festas populares (lavagem) junto com Hanorina.
Tinha também dona Hercília, famosa pelos ternos de caboclo e um presépio que tomava toda sala.
Antes de chegar a entrada do CEAT havia a sede do Atlético (time dos fateiros), casa onde morou sargento Lobato, a família da professora Clarice esposa de Zé de Julinho.
Queria pular, mas não posso deixar de citar Severino protagonista de uma fatídica noite de terror com tiros, facadas, sangue e mortes.
Depois dessa mancha lúgrube, vamos a entrada velha do CEAT. Antes havia uma nesga ao lado da barbearia de seo Antão depois cantina, onde morava seo Antonio Gonçalves e dona Joaninha pais de Teobaldo – Bardinho, (Vavau e Edinho estão no plano superior em companhia aos pais), Edson e Everaldo, todos meus amigos irmãos. Numa das casas, também mora dona seo Passinho, dona Nininha e o filho Solon. Tenho u’a amiga que na adolescência me confessou ser apaixonada por Solon.
A entrada do CEAT era a mesma da Escola de Agronomia. Havia um desvio a esquerda que formava um ângulo agudo com a pista principal. A entrada hoje existente foi construída no final dos anos 60.
Naquela área em frente residiam o capitão Aurino, meu amigo Noel, e vizinho a casa da família de Paiva (saudade), Angélica, Zelita morava uma senhora por nome Edite professora leiga casada com cabo Didi que participou da volante que matou o famoso herói/bandido Lampião o rei do cangaço.
Aí vinha a casa de Chico Mangueira, Abílio magarefe, Juca irmão de Passinho que trabalhou no IPEAL e a casa de dona Antônia mãe de nosso amigo Hugo – hoje pousada Cantinho da Tia Tonha.
Finalmente o grande rio desembocava na rodagem que finalmente o conduziria à estação.
Havia ali um posto Esso de combustíveis com lavagem de carros, restaurante/bar e espaço para divertimentos.
Ruas tem singularidades diferentes dos seres humanos. Com o passar do tempo, elas vão se modernizando, adquirindo novos hábitos, vestindo nova roupagem e você passa a ser um ilustre desconhecido.

(Publicado originalmente em Almanaque Cruzalmense/Facebook)

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.