O cultivo do fumo, a princípio, aqui no Recôncavo era caracterizado como uma cultura de pobre, e mais tarde, com o seu crescimento industrial, conseguiu se tornar o segundo produto da economia baiana.
O historiador Luiz Cláudio Dias do Nascimento relata que “o tabaco era visto como uma cultura de pobre por ser, inicialmente, um trabalho aplicado à agricultura familiar, em que bastava ter um pequeno espaço de terra e poucos escravos, era o suficiente para desenvolver a produção do fumo.”
Nessa ocasião, por uma determinação real do século XVIII, só algumas cidades do Recôncavo baiano estavam autorizadas a cultivar o tabaco. Esse acordo foi importante para não comprometer, por outro lado, o abastecimento de gêneros alimentícios. “E isso implicava em carestia“, disse o historiador. Era um termo usado, na época, para referir-se a carência, a ausência de comidas. Entretanto, para não comprometer a carência de alimentos, o rei determinava que apenas algumas cidades da região poderiam cultivar o tabaco.
Essas cidades do Recôncavo baiano autorizadas a cultivar o tabaco, foram as cidades atreladas ou juridicamente dependentes de Cachoeira: São Félix, Muritiba, Cruz das Almas e Santo Antonio de Jesus, embora algumas dessas zonas, na época, ainda fossem desocupadas, o que caracterizava-se como uma produção não relevante, como a cidade de Castro Alves, Conceição da Feira e São Gonçalo dos Campos.
Todas essas cidades eram classificadas como freguesias de Cachoeira, porque tudo o que elas produziam e precisava exportar para Salvador, inevitavelmente, passava por Cachoeira para fazer o pagamento da taxa de impostos.
Com a evolução, esses povoados se expandiram no ponto de vista demográfico e logo se tornaram vilas. E, em função do grande número de plantios e armazéns de fumo, logo depois se tornaram cidades. Nesse período, as empresas fumageiras que se destacaram foram as Dannemann e Suerdieck, ambas implantadas na segunda metade do século XIX.
Quando se fala da cultura fumageira e da indústria charuteira do município de Cruz das Almas, não se pode esquecer a empresa Suerdieck que, historicamente foi a maior representante da Bahia no mercado de charutos.
Seu fundador, o alemão August Suerdieck, pisou na Bahia no ano de 1888. Ele veio para o interior baiano como empregado da firma alemã F. H. Óttens, que o enviou a Cruz das Almas com a missão de fiscalizar o enfardamento de fumo.
Quatro anos depois, em 1892, ele compra desta mesma firma o seu próprio armazém e cria sua empresa em Cruz das Almas, como exportador e enfardador de fumo, registrando-a com a razão social de A. Suerdieck.

Logo, passou também a dedicar-se ao plantio e cultivo de fumo em São Félix e Cruz das Almas. A qualidade do fumo Suerdieck permitiu que ficasse conhecido na Europa proporcionando grandes lucros.
Em 1899, a vinda de Ferdinand Suerdieck para a Bahia, irmão de August, tornou possível que em 1905 fosse construída a primeira fábrica de charutos Suerdieck em Maragogipe e, somente no ano de 1935 inaugurou a fábrica de Cruz das Almas (observe-se que “fábrica” é diferente de “armazém”). Naquele ano, a Suerdieck possuía apenas 50 trabalhadores, uma década depois esse número já havia subido para 500 empregados e, anos mais tarde, chegou a contar mais de 5 mil.

O Município de Cruz das Almas teve parte de sua economia impulsionada pela indústria fumageira. Foi uma atividade que gerou emprego, renda e avultadas receitas para o município.
Quem muito contribuiu, politicamente, para a instalação da fábrica Suerdieck em Cruz das Almas foi o Dr. Lauro Passos, que além de fazendeiro produtor de fumo, era deputado na Assembléia Nacional Constituinte pela Bahia, de 1933 a 1937.

Muitos cruzalmenses lembram-se ainda dos antigos armazéns de fumo de Sr. Cazuzinha, Sr. Garrido, Sr. Maninho, Dr. Luiz Eloy Passos, Dr. Ramiro Passos, Dr. Lauro Passos, Sr. Waltercio Fonseca, Sr. Álvaro Brandão entre outros.

O cheiro do tabaco, meio adocicado e meio sufocante, sentir-se no ar e ouvia-se ao longe a sirene estridente da fábrica a tocar. Dos enormes galpões, carregados em ombros fortes, saiam os fardos de fumo que eram transportados em lombos de animais, carrocerias de caminhão, vagões de trem e em navios a vapor.
Ainda em 1935, foi criado o IBF – Instituto Bahiano do Fumo, pelo Decreto Estadual 9.409, de 16 de março; porém, a sua Estação Experimental em Cruz das Almas começou a funcionar somente em 1950, sendo o seu primeiro diretor o Dr. Landivaldo Melo Mota. O prédio antigo, mas muito bem conservado e de belíssima arquitetura, localiza-se do lado da Mata de Cazuzinha, entrando pela Praça Multiuso, onde atualmente é o Serviço Territorial de Apoio à Agricultura Familiar do Recôncavo, SETAF – Recôncavo.

Em 1950 também instalou-se aqui a AGRO COMERCIAL FUMAGEIRA, com seus vários campos de produção de mudas e folhas de fumo capeiro. Chegou a ter 2.000 operários.
Porém, a partir da segunda metade da década de 60, a fumicultura baiana começou a demonstrar uma decrescente e sofreu redução drástica, saindo de um patamar de 44 mil toneladas, em 1965, para 9.133 toneladas em 2002. Ainda assim, na década de 70, contava-se ainda uma dezena de armazéns de fumo e quatro ou cinco manufaturas de charutos instaladas no Recôncavo. Entretanto, com as sucessivas crises econômicas, a situação tornou-se delicada, chegando a fechar empresas e demitir grande número de empregados, culminando com o fechamento da fábrica Suerdieck em Cruz das Almas, no ano de 1999.

Aos poucos, foram surgiram outras empresas de beneficiamento do fumo e manufatura de charutos que, paulatinamente, na tentativa de ocupar o mercado, instalaram-se em vários bairros da cidade, distanciando-se do centro, mas absorvendo parte da mão de obra demitida da Suerdieck.
As fábricas de charutos que atualmente compõem o setor charuteiro de Cruz das Almas são a Leite Alves Ltda, a Josefina Tabacos Ltda, Luiz Sandes Charutos e Cigarrilhas, Charutos S. Salvador, MR Charutos Ltda, Tabaqueira Le Cigar, Tabacos Matas da Bahia Ltda. Tabacos Mata Fina, Don Francisco Charutos, Maria Gomes Simões Velame.
Além disso, a fumicultura no município de Cruz das Almas continua presente apenas na tradição e na memória do povo. E também registrado em nomes de praças e ruas da cidade como a Praça Geraldo Suerdieck e a Rua Ótens, nomes que caracterizam a importância do fumo para o desenvolvimento em Cruz das Almas.

FONTES:
GUEDES, Francisco. A influência dos alemães no Recôncavo da Bahia – Jornal Reverso Online da UFRB em 08/08/2016
FONSECA, José Antonio de Oliveira. SILVA, Barbara-Christine Nentwig. A FUMICULTURA NO MUNICÍPIO DE CRUZ DAS ALMAS/BA: AS TRADIÇÕES E AS MUDANÇAS NO TERRITÓRIO. Texturas. Cruz das Almas-BA, v. 5, n. 9, p. 19-31, jan./jun. 2012
PORTO FILHO, Ubaldo Marques. Suerdieck: epopéia do gigante. 1892-1999. Salvador: Ubaldo Marques Porto Filho, 2003.

