Nascida em Cruz das Almas na década de 30, adotou como profissão o ofício de costureira. Contou-nos que durante sua infância costumava passar o São João na roça de parentes. Uma senhora muito simpática, admiradora inquestionável dos festejos juninos da cidade, especialmente das espadas. Na sua juventude, nos anos de 1950 e 1960, deixou de ir para a localidade rural que costumava frequentar, passando então a vivenciar os festejos da cidade, em meio às confraternizações entre familiares e amigos, assistindo a queima de espadas pelas ruas, em especial a Rua da Estação, local onde morava, uma das mais conhecidas durante a queima do artefato. Dona Maria Moura então começou a se envolver na organização de fanfarras e quadrilhas juninas. Ela relata, em seu depoimento, que gostava muito dessas atividades, às vezes chegava a investir seus próprios recursos financeiros a fim de comprar lanches e roupa para crianças que participavam das quadrilhas juninas. Relata-nos que gostava de perfeccionismo nas coisas em que se envolvia e organizava tudo a sua maneira.

A partir dos anos de 1980, essa senhora foi introduzindo alguns elementos ao dia 24 de junho, criando uma forma de organizar a queima de espadas para que pudessem ser apreciados por aqueles que temiam ir para o meio das espadas na Praça Senador Temístocles. Dona Maria contou-nos que costumava confeccionar duas bandeiras, uma branca e uma vermelha. A branca sinalizava o momento em que ela ia ao centro da rua e arrumava uma mesa cheia de comidas e bebidas típicas no dia de São João. No momento em que a bandeira branca estivesse no alto ninguém poderia queimar espadas, enquanto a mesa estava à disposição de todos que quisessem apreciar as guloseimas. O contrário acontecia quando a bandeira vermelha era levantada, significava que o fogo estava liberado.

“E na hora que eu botava a comida lá, que as espadas tocavam, eu fazia uma bandeira branca e uma vermelha; a vermelha ficava aqui, e a branca ficava lá em baixo, pra avisar na hora que chegasse que era pra botar as coisas. Aí, quando eu suspendia a bandeira vermelha aí o fogo comia, quando eu ia, a vermelha ficava lá em baixo e a branca fica ai, quando eu ia pra botar as coisa aí onde é esse meinho ali que tem na rua da estação, aí ficava ali as mesas, eu ia com as bandejas. Botava as vasilhas lá, era milho, farofa de carne do sertão, amendoim, canjica, tudo quanto era coisa aí eu ia e botava lá. Aí Marquinhos ficava com a bandeira branca aqui, na hora que eu ia subia, a de lá abaixava:

  • É vem, Maria Mouraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa…
    Eles suspendiam a bandeira branca, eu ia botava as coisas lá. Aí quando eu ia baixava a bandeira, aí Marquinhos baixava a bandeira branca, aí a vermelha subia e o couro comia”.

Esse ritual, protagonizado pela senhora Maria Moura, é um dos momentos que povoavam as comemorações do São João na cidade de Cruz das Almas nas décadas de 1980 e 1990.
Dona Maria Moura ainda reside na Rua da Malva; apesar da saúde debilitada, está cheia de vida e histórias vividas! Merece, pois, essa nossa homenagem!

(FONTE: ENTRE CRUZ E AS ESPADAS: PRÁTICAS CULTURAIS E IDENTIDADES NO SÃO JOÃO EM CRUZ DAS ALMAS – BA (1950 – 1990). de ADRIANA DA SILVA OLIVEIRA. 2012.)

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.