Era sempre assim: chegava 27 de setembro e, em várias casas de Cruz das Almas, das cozinhas emanava um cheiro inconfundível, uma mistura de quiabo e dendê que invadia as ruas como se anunciasse algo sagrado. O caruru do Dia de São Cosme e São Damião era um ritual que ia além do ato de alimentar. Naquele tempo, oferecer o caruru significava partilha, comunhão e fé. Uma tradição que as famílias, independentes da classe social, mantinham com devoção, como guardiãs de receitas passadas de geração em geração, cada uma com seu tempero particular, mas todas com o mesmo propósito: oferecer o que tinham de melhor, em agradecimento e generosidade aos santos gêmeos.
Dona Marocas era uma dessas mestras do caruru. Sua casa se tornava uma procissão de panelas e conversas, enquanto ela, incansável, preparava o banquete. A meninada aguardava o dia inteiro, sabendo que, ao cair da tarde, haveria a oportunidade de sentar-se ao redor de uma grande bacia de alumínio, como era o costume. Mas não era apenas a comida. Antes de qualquer coisa, vinha a reza. Bem cantada, como exigia o ritual. São Cosme e São Damião precisavam ser devidamente homenageados antes que se pudesse tocar naquelas iguarias. Era uma reza que mais parecia um canto, que embalava o espírito e acalmava as ansiedades da espera.
Na casa de Helenita da Suerdieck, o caruru também era famoso. Pessoas de toda a parte se achegavam, e era tanto menino correndo atrás de um punhado de doces que Helenita distribuía com um sorriso nos lábios. Mas quem sabia mesmo agradar à criançada era o médico Dr. Dário. Homem sério, de gestos comedidos, mas que, nesse dia, cumpria com a obrigação de encher as mãos da meninada com balas coloridas. A criançada o cercava, e ele, com paciência, distribuía os doces, uma cerimônia tão esperada quanto o próprio caruru.
E tinha o Souza, morador da Rua da Vitória, que fazia questão de manter viva a tradição. Seu caruru não era apenas famoso pelo tempero. Era a festa em si, o ajuntamento de amigos e familiares, a celebração da vida em comunidade.
Já, no outro lado da cidade, num lugarejo chamado Lisboa, D. Mari preparava sua mesa com esmero e o caruru dela chegava com humildade, mas era no sabor que se revelava grandioso. A cada ano, parecia mais forte o elo que unia sua casa à devoção dos santos.
Na Estrada de Ferro, Jaime de Baé, irmão de Didi do Caixão, cumpria com zelo a tradição. Seu caruru tinha algo de especial, talvez aquele pedaço de Cruz das Almas tivesse algo muito especial. Quem comia lá saía com a sensação de ter feito uma viagem no tempo, levado por histórias e memórias contadas entre uma garfada e outra.
Dona Alice, esposa do Sr. Inocêncio Carcereiro, era uma dessas mulheres que conseguiam transformar a simplicidade do cotidiano em algo mágico. Na vila de militares, que ficava atrás da delegacia, onde moravam, ela preparava seu caruru com as sete crianças ao redor. Era uma pequena legião de olhos ansiosos, mas antes da comilança, havia a reza. A bacia de alumínio, que Dona Alice mantinha sempre limpa e brilhante, era o centro da pequena festa. Ali, em volta daquela bacia, a comida se tornava um laço sagrado invisível que unia, reforçando a sensação de que, juntos, eram todos mais iguais, mais fortes, mais felizes e mais parte de algo maior.
Hoje, o tempo passou, e talvez as rezas já não sejam tão bem cantadas, talvez as bacias de alumínio tenham dado lugar a pratos mais modernos. Mas, na memória afetiva dos cruzalmenses, o caruru de Cosme e Damião sempre será um símbolo de um tempo bom, em que comer juntos era mais do que um ato de alimentar o corpo — era um modo de nutrir a alma.
(Imagem retirada da internet, meramente ilustrativa. Foto de Pierre Verger)

