No contexto histórico de Cruz das Almas, entre as décadas de 1930 e 1940, a chegada das primeiras igrejas cristãs evangélicas, as chamadas protestantes — adventistas, assembleianos e batistas — marca um importante momento de diversidade religiosa. No entanto, não foi amplamente reconhecido na historiografia local, conforme aponta o memorialista Mário Pinto da Cunha em suas obras “História de Cruz das Almas” e “Aquarela de Cruz das Almas”, datadas de meados e final da década de 50. Cunha, ao longo de seus textos, também publicados no periódico da época, o Jornal Nossa Terra, revela sua inclinação católica, o que explica a falta de destaque aos protestantes em suas narrativas, mesmo que estes grupos já tivessem presença significativa na cidade.
Mário Pinto da Cunha exalta o pioneirismo católico, atribuindo a fundação da cidade ao papel civilizador dos tropeiros católicos, que “paravam em frente a um cruzeiro para rezar”. Esse cruzeiro, símbolo cristão, representa o marco de um discurso que associava o catolicismo ao progresso e à formação das cidades. Para ele, o catolicismo não apenas civilizava, mas também era a religião oficial que legitimava o poder social e político. As práticas religiosas não católicas, por outro lado, eram mencionadas de forma marginal. Por exemplo, Cunha refere-se ao Espiritismo e aos cultos de matriz afro-brasileira, como “macumba” e “umbanda”, observando sua presença na cidade em 1959, mas os descreve de maneira superficial, sem o “colorido pitoresco e fervor” que esses cultos possuíam em outras regiões. Esse tratamento reforça a ideia de uma hierarquia religiosa em que o catolicismo era considerado superior e mais aceitável.
Interessantemente, Cunha também faz uma associação entre o crescimento da instrução em Cruz das Almas e a transformação dos hábitos culturais e religiosos. Ele aponta que instituições educacionais, como a Escola Agronômica da Bahia (EAB) e o Colégio Alberto Torres (CAT), foram agentes reformadores dos costumes da cidade, creditando-lhes o mérito de elevar o nível de “esclarecimento” da população. pairando a ideia de que o progresso estava intimamente ligado ao aumento da instrução formal, que, segundo ele, ajudava a “desgastar a crendice, destruir fetiches e anular tabus”.
Esse discurso de uma cidade que evoluía pela instrução e pelo esclarecimento gerou uma impressão de que Cruz das Almas estava se tornando uma “cidade ilustrada”. Contudo, a religiosidade católica, com suas “liturgias solenes”, continuava a ser a que melhor se associava aos ritos do poder, enquanto as demais crenças, como as dos evangélicos protestantes e afro-brasileiras, eram colocadas em segundo plano, quando não diretamente invisibilizadas.
Ao analisar essa narrativa de Cunha, é possível perceber como a história religiosa de Cruz das Almas foi moldada por uma perspectiva que favorecia o catolicismo em detrimento de outras formas de expressão religiosa. Esse discurso reflete a maneira como o poder e a fé estavam entrelaçados na formação das identidades sociais da época, criando uma imagem de uma cidade civilizada pela religião dominante, enquanto os outros grupos, incluindo os evangélicos, permaneciam nas margens da historiografia oficial. Para os estudantes, sobretudo, é importante reconhecer que a história é sempre contada de pontos de vista específicos, e a ausência de certas vozes — como a dos primeiros protestantes em Cruz das Almas — não significa que elas não existiram ou que não tiveram relevância no processo de formação e crescimento da cidade.

