Como assim? Cruz das Almas tem uma literatura com características próprias?
Sim! E também importa que falemos sobre, ensinando aos jovens para que também façam esta leitura, reconhecendo tais características.
Bem, entendo a chamada “Literatura Cruzalmense” como uma expressão literária que emerge de Cruz das Almas, uma cidade com rica tradição cultural e que reflete a singularidade de sua história, o orgulho de sua identidade e sua memória coletiva. Uma literatura caracterizada pela diversidade de vozes e estilos, abrangendo tanto a poesia lírica e engajada de Jacinta Passos e de Galeno D’Avelírio, quanto o regionalismo marcado pelas paisagens e tradições do Recôncavo, presente nos escritos de Luciano Passos, por exemplo.
Observo que, geralmente, os escritores e escritoras cruzalmenses exploram temas como a vida cotidiana, a luta por justiça social, as complexidades da alma humana ou ainda as tradições populares, sempre em diálogo com o cenário cultural de suas épocas. Alguns até trazem à tona questões sobre política e a formação de uma consciência crítica na cidade, enquanto outros se destacam pela sensibilidade e pela abordagem profunda de questões humanas universais. E há ainda os que conseguem juntar todos estes temas e tratá-los em forma de poesia de cordel, como Conde Barbosa, André Peixoto, Laurenice Barbosa e outros.
A Literatura Cruzalmense também valoriza o resgate e a preservação da memória, seja através de crônicas que reconstituem a história local ou de narrativas que celebram as figuras icônicas da cidade. Ela carrega o espírito da região e encontra no leitor cruzalmense uma identificação profunda com sua realidade, ao mesmo tempo em que projeta essa cultura para além de suas fronteiras, tornando-se uma voz literária significativa. Podemos citar aqui representantes como Nelson Magalhães “Êne-Ême”, Rei Consul, Alino Matta Santana, Renato Passos, Leandro Costa Pinto de Araújo, Edisandro Barbosa Bingre, Ygor Coelho, entre tantos outros.
Um outro fato importante a ser registrado é o nascimento da revista literária Reflexos de Universos, em 1976, e que deu início a um importante movimento artístico-cultural em Cruz das Almas, tendo seu ápice na década de 80, com a abertura da Casa da Cultura, quando a Literatura Cruzalmense viveu um momento de efervescência com uma nova geração de escritores e escritoras que se destacaram, especialmente na poesia. Nomes como Hermes Peixoto, com sua escrita visceral e reflexiva, e Gláucia Guerra, que mescla em seus versos sensibilidade e profundidade, ambos com relevância na cena literária local. Os textos de Graça Sena e Lita Passos trazem à tona uma poética marcada por forte engajamento social e afetivo, tocando questões de identidade e pertencimento, enquanto Patrícia Mendes chama a atenção por sua habilidade em poetizar sentidos e sentimentos em metáforas potentes, repletas de lirismo e sutileza. Esses autores e autoras formam uma frente criativa que renovaram a tradição literária de Cruz das Almas, projetando suas vozes com autenticidade e originalidade, e consolidando a poesia como um dos pilares dessa… “nova fase”? Melhor dizendo: dessa fase renovada!
Em síntese, conceituo a Literatura Cruzalmense como um conjunto de identidades, experiências e tradições, onde o passado e o presente se encontram para celebrar a vida e a história de uma cidade profundamente marcada pela palavra, pela arte de transmitir a mensagem através da escrita.
Ah… e a lista de escritores e escritoras cruzalmenses, com centenas de livros publicados, é enorme. Busquem conhecer! Sugiro a biblioteca / livraria da Casa da Cultura e a Livraria da Academia de Letras na Loja Cofel.

