Receber uma fotografia antiga é como abrir uma janela mágica para o passado. Quando Hermes Peixoto, esse querido amigo e guardião de tantas histórias cruzalmenses, enviou-me digitalmente o retrato de seus dias no Studio do Serviço de Altofalantes Tamandaré, senti o peso e a beleza de uma era que não vivi, mas que agora parecia tão próxima, tão viva.

Na imagem, Hermes aparece jovem, altivo, trabalhando com a responsabilidade de quem carregava a missão de levar música e informação aos corações cruzalmenses. Era década de 50, e ele comandava as manhãs de domingo com o programa Rádio Novidades.

A Praça Senador Temístocles, ponto de encontro da cidade, tornava-se palco de uma experiência única. Os alto-falantes instalados no alto da praça faziam as vozes e os sons alcançarem os bancos ocupados por ouvintes atentos. Imagina-se a cena: famílias inteiras, jovens sonhadores, senhores com seus chapéus de feltro, todos ali, compartilhando o mesmo instante, unidos pela magia do rádio.

Hermes, com seu gravador de rolo – tecnologia que à época parecia algo quase mágico – dedicava a semana a captar sons e novidades. Da Rádio Globo às ondas curtas da BBC de Londres, ele trazia ao pequeno recôncavo baiano um mundo de possibilidades. Era assim que muitos em Cruz das Almas ouviam, pela primeira vez, astros como os Beatles, Louis Armstrong e até a diva Sarita Montiel.

E não era apenas música. O programa intercalava canções e notícias, uma mistura que transportava os ouvintes de Cruz das Almas para a Bahia, o Brasil e até além-mar. Era um tempo em que a praça não era apenas um espaço físico, mas um ponto de convergência emocional e cultural, uma rede social acústica antes de qualquer tecnologia digital.

Quando ouvimos Hermes narrar esses dias de glória, percebemos o quanto sua dedicação ia além do simples ofício. Ele era, na essência, um semeador de sonhos, entregando ao público um pedacinho do mundo que muitas vezes parecia distante demais.

Hoje, ao escrever esta crônica dominical para o Almanaque Cruzalmense, sinto-me não apenas honrado por carregar essa memória compartilhada, mas também responsável por perpetuá-la. Hermes Peixoto não foi apenas a voz das manhãs de domingo; ele é um mundo de cultura ecoando na nossa Cruz das Almas.

Gratidão, Hermes Peixoto, por compartilhar esta memória conosco. Como certamente diria o nosso confrade Rei Cônsul: Você é mais do que um baú de histórias; você é uma fonte de inspiração!

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.