Quem me conhece sabe que eu nunca fui fã de acarajé! O aroma marcante do azeite-de-dendê nunca me atraiu; muito pelo contrário, causa-me repulsa. Contudo, um presente inesperado reacendeu minha curiosidade por essa iguaria tão emblemática da Bahia. Recebi do Dr. José Mário Peixoto Costa Pinto, que marcou sua passagem por Cruz das Almas como Juiz de Direito, uma preciosidade: o livro Caderno de Comidas Baianas, de autoria de Joaquim da Costa Pinto Netto, seu parente.
Que obra deliciosa, no melhor sentido da palavra! Entre receitas, histórias e descrições carregadas de afeto e detalhes minuciosos, encontrei um capítulo que me fez viajar para um tempo e um lugar que, infelizmente, nunca vivi: o ponto de acarajé de Rosália, em frente ali onde hoje é o Bradesco, bem no centro de Cruz das Almas.
É curioso como a literatura pode transportar-nos a cenários nunca antes visitados, desenhando com palavras paisagens e momentos que tomam vida em nossa imaginação. Enquanto lia sobre a simplicidade e a magia do acarajé e do abará, quase consegui visualizar Rosália, com seu tabuleiro montado, fritando os bolinhos no azeite borbulhante sob o olhar atento de fregueses.
Joaquim Costa Pinto Netto descreve essas delícias com uma reverência quase solene. O acarajé, ele diz, além de um prato do sagrado, no profano é um petisco de rua, que era comido em pé, segurando na mão, invariavelmente sujando os dedos de azeite, em esquinas e praças, sem a formalidade dos talheres ou da mesa posta. E o abará, seu primo cozido, compartilha da mesma nobre simplicidade. A imagem das baianas, com seus tabuleiros, avançando pela noite enquanto alimentavam o corpo e o espírito dos passantes, remete a um mundo tão poético como diz uma famosa canção de Caymmi.
Entre as páginas do livro, chamou-me a atenção a crítica aos “modernismos” que teriam invadido os tabuleiros. Diz o autor que, antigamente, o acarajé era servido puro ou com a meladinha do molho de pimenta no ponto certo da baiana, aberto com um pouco de camarão e entregue sobre um recorte de folha de bananeira. Hoje, segundo ele, perdeu-se parte dessa essência: vatapá de fubá de milho, uma “salada” de tomate e cebola picados e embebidos de vinagre, e até mesmo o papel de embrulho (pardo, rosa, verde ou de um azul acinzentado) substituindo a folha de bananeira seriam sinais de uma deturpação.
E como não sorrir com a menção aos preços? Antes, o acarajé custava o equivalente a meros 30 centavos de real. Com a mudança da moeda, foi “arredondado” para um real e, a partir daí, subiu impiedosamente.
Enquanto lia, senti-me intrigado. Quem viveu a época do acarajé de Rosália confirmaria essa aura mágica descrita por Costa Pinto Netto? Talvez o ponto em frente ao Bradesco tivesse o poder de transformar um simples bolinho em algo muito maior: um encontro de aromas, memórias e afetos.
Não… repito: eu não como acarajé. Mas, graças a esse presente, sinto-me um pouco mais próximo dessa tradição que é parte da alma baiana. A literatura, afinal, é como o acarajé de outrora: pode até ser consumida com simplicidade, mas sempre deixará um sabor intenso, profundo e que permanece, como a lembrança da figura de Rosália.

