Sempre que chega o período destas que são as festas mais amadas dos cruzalmenses, tanto a junina quanto a natalina, lembro-me de uma tradição que fazia parte da cultura das mulheres operárias da Suerdieck: o caixa do queijo.

Noutros tempos, quando os armazéns de fumo davam vida à cidade e a Fábrica Suerdieck era um motor pulsante no cotidiano de Cruz das Almas, havia uma tradição que aquecia os corações e iluminava os olhos das operárias, especialmente nos meses de junho e dezembro. Era o tempo do “caixa do queijo”, uma espécie de consórcio cuidadosamente organizado durante semanas e até meses anteriores por mulheres como Dona Neta e Dona Almerinda, por exemplo, que eram duas figuras icônicas, charuteiras e moradoras da Fonte do Doutor. 

Nos salões da Suerdieck, entre o cheiro do fumo curado e o ritmo das máquinas, as duas senhoras dedicavam-se com esmero à tarefa de relacionar e cobrar as cotas que resultariam no momento mais aguardado que era receber o item mais caro e cobiçado da cesta junina ou natalina: o queijo Palmyra. Um queijo que não era apenas alimento, mas símbolo de celebração, de fartura e de carinho em família. 

Em junho, que era tempo de São João, o caixa do queijo ganhava um toque especial. Dona Neta e Dona Almerinda sabiam que aquele queijo-de-cuia, com sua textura única e sabor inconfundível, seria a estrela das mesas juninas, cortado em finas fatiazinhas, acompanhando licor, bolo, milho e amendoim.

Já em dezembro, quando o Natal se aproximava, o caixa assumia ares de presente. O queijo Palmyra, o famoso,  era ansiosamente aguardado, como se fosse uma joia, pronto para ocupar lugar de honra na ceia de final de ano. 

Imagino quão grande devia ser o orgulho das duas ao entregarem os “caixas”, como se estivessem ofertando não apenas um queijo, mas um pedaço da própria dedicação. “Aqui está o melhor”, dizia Dona Neta, com um sorriso discreto, enquanto Dona Almerinda fazia questão de contar a história de como cada queijo havia sido adquirido. 

Era bonito ver como o “caixa do queijo” carregava mais do que o sabor do Palmyra. Ele trazia histórias, memórias e o esforço de mulheres que, apesar da dureza do trabalho, encontravam alegria em preparar algo tão especial.  Era o queijo que atravessava gerações, que juntava gente em torno da mesa, que fazia a criança lamber os dedos e o velho relembrar tempos passados. 

O “caixa do queijo” não era apenas uma tradição; era um abraço, quase um acordo coletivo. E o Palmyra, ah, o Palmyra… Era mais que a estrela. Era o sabor de um tempo que a gente insiste em guardar, mesmo que só na memória.

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A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.