Cruz das Almas sempre foi uma cidade sui generis, daquelas que guardam suas tradições com um carinho quase nostálgico. Hoje pela manhã, fui despertado pelo som característico de um carro de som cruzando o bairro. A mensagem, carregada de intenções grandiosas, começava com um solene e anasalado: “ãmigos e ãmigas de Cruz das Almas! Quero falar com cada um e cada uma de vocês…”. Era como se aquele sujeito da voz gravada realmente acreditasse que conhecia “cada um e cada uma” dos moradores da cidade – ou, mais audacioso ainda, que todos nós deveríamos conhecê-lo.

Esse tipo de cena já é comum para nós, cruzalmenses de coração. Mas para quem chega de fora, o fenômeno do carro de som é um enigma que mistura o arcaico e o eficiente de uma maneira quase poética. Afinal, qual outra cidade de 70 mil habitantes se comunica dessa forma? Aqui, o carro de som não é apenas uma ferramenta de divulgação; é um fenômeno cultural, quase uma instituição.

Pense bem: o carro de som é um mensageiro das emoções da cidade. Ele anuncia desde as promoções de lojas chiques ou populares, inaugurações ou festas de camisa, até as mais solenes notas de pesar, informando a população sobre falecimentos e velórios. Aqui, a morte de um conterrâneo não é uma questão privada, mas um evento que precisa ser partilhado. E ai de quem morrer sem ter seu nome anunciado nas principais ruas da cidade! Isso equivale, socialmente, a desaparecer sem deixar rastro.

Confesso que tenho minhas próprias memórias com o carro de som. Nos tempos em que eu oferecia o meu Curso de Redação, usava de todas as estratégias de divulgação: visitava escolas, ia a programas de rádio, dava entrevistas na extinta TV Recon… Mas o que realmente trazia os alunos eram os anúncios no carro de som. Quase 100% das matrículas vinham daquele alto-falante itinerante, que ecoava pelas ruas da cidade como um arauto moderno.

Talvez seja isso que torna o carro de som tão peculiar. Ele é rudimentar, sim, mas sua eficácia é inegável. Combinando tecnologia simples e um toque de humanismo, o carro de som continua relevante numa época em que as redes sociais dominam a comunicação. Ele é a voz da cidade, um elo entre as pessoas, um lembrete de que, mesmo em tempos de avanços digitais, algumas tradições ainda fazem sentido.

E, como diria a escritora Sarah Palavra, talvez seja isso que nos defina como cruzalmenses… Somos uma cidade que ainda valoriza o aviso ao vizinho, a voz que ecoa pelas ruas anunciando boas novas ou tristezas compartilhadas. O carro de som, com seu estilo peculiar, é parte da nossa identidade. Nós o abraçamos como abraçamos nossas memórias, com carinho e um toque de humor. Porque, no fundo, sabemos que, sem ele, Cruz das Almas não seria Cruz das Almas.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.