Parecia mais um dia comum para o Almanaque Cruzalmense quando, ao abrir as mensagens no messenger do grupo, eis uma fotografia cuidadosamente digitalizada e que revela mais do que rostos: prenunciava trazer à tona memórias de uma época dourada da “Cruz das Almas dos bons tempos”. No retrato, o engenheiro João Batista Conrado, ao lado de sua esposa, a professora Mariá Augusta Bamberg Conrado, e da filha Regina, que parecem sorrir diretamente para o coração de quem os recordava.

A família Conrado, que residiu na Rua da Vitória até 1958, marcou uma geração com suas contribuições para a vida social, cultural e educativa da cidade. D. Mariá, com sua energia contagiante, tornou-se uma figura inesquecível para as crianças. Era ela quem organizava teatros e desfiles que iluminavam as ruas com a alegria de uma infância despreocupada. Com sua criatividade, vestia Regina e suas amigas com fantasias iguais, fazendo delas as estrelas de carnavais pacíficos e genuínos, embalados pelo som das filarmônicas locais.

Naquele tempo, as festividades não se limitavam ao Carnaval. Quem poderia esquecer a famosa Feira Chic, realizada no jardim do coreto, lateral da Igreja Matriz? Um evento beneficente que transformou crianças em protagonistas. Elas vendiam doces, cartas, e até liam a sorte – Miralva Oliveira, fantasiada de cigana, era um sucesso absoluto ao “decifrar” os mistérios das mãos curiosas. Barracas coloridas ofereciam uma variedade de produtos, e a cidade inteira parecia pulsar com a energia dessa iniciativa encantadora, que Mariá orquestrava com maestria.

E havia o teco-teco de João Conrado, um avião que, sempre que pousava na Escola de Agronomia, causava alvoroço. As crianças corriam pela estrada de ferro, olhos brilhando de entusiasmo, para ver de perto a pequena aeronave, que para elas era um símbolo de aventura e liberdade.

As memórias de apresentações teatrais também aquecem o coração. Em uma ocasião, até o cinema de Muritiba lotou para assistir a uma peça dirigida por Mariá, com crianças de Cruz das Almas no elenco. Era um tempo em que a arte e a comunidade andavam de mãos dadas, transformando experiências simples em momentos grandiosos.

Após 1958, a família Conrado mudou-se para Salvador, mas deixou em Cruz das Almas um legado de afeto e inspiração. Além de Regina, o casal tinha mais dois filhos: Nelson, o filho mais velho, tornou-se piloto de aviões, e João Filho, um dos donos do Colégio Anchieta. Regina, a estrela de tantos momentos mágicos, continua viva nas lembranças daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela.

Este inesperado retrato da família Conrado é mais do que uma imagem: é uma janela para um passado cheio de alegria, união e criatividade. Uma prova de que, mesmo com o passar dos anos, algumas histórias continuam a brilhar, como luzes perenes na memória afetiva de Cruz das Almas.

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A Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso da Cruz das Almas foi criada há 211 anos em 22 de janeiro de 1815.