Cruz das Almas amanheceu mais silenciosa hoje. Não o silêncio comum de uma manhã de janeiro, mas aquele que só surge quando a cidade recebe uma notícia solene. O falecimento do Professor Manoelito Roque Sá, aos 90 anos, marca um ciclo de sabedoria, arte e serviço à nossa terra.

Nascido em Lençóis em 1º de julho de 1934, “Manelito”, como era carinhosamente chamado, chegou a Cruz das Almas ainda muito jovem, mas rapidamente fez do nosso Recôncavo seu lar. Aqui construiu uma trajetória que misturou educação, política, literatura e história, e por isso recebeu, em 1997, o merecido título de Cidadão Cruzalmense. Foi mais que um título simbólico; foi o reconhecimento de uma vida que se entrelaçou à nossa.

No Colégio Estadual Alberto Torres (CEAT), onde foi aluno e formou-se professor em 1958, também lecionou História e Geografia; não só lá, mas também no Comendador Themístocles e no Colégio Cruz das Almas.

Aliás, ele não apenas ensinou, mas moldou gerações. Sou testemunha, na minha própria experiência, primeiro como seu aluno ali na 5ª série no CEAT e depois ao vê-lo dirigir com maestria aquela instituição. Manelito era mais que um educador: era um inspirador. Recordo com emoção o dia em que, eu estudante de Agropecuária, angariei e entreguei a ele, como doação para a biblioteca do curso, centenas de livros especializados, e ele muito emocionado dizia “Que maravilha, que maravilha!”, enquanto os livros eram descarregados do carro. Senti que a emoção não era pelo gesto, mas pelo amor que nutria pela Educação. Eu soube, anos mais tarde, que ele costumava doar fardamento, calçado e material escolar para estudantes que não tinham condições financeiras de adquirir. Soube desta história, aliás, pelos próprios beneficiados; ele mesmo, nunca falou nada a respeito.

No entanto, a memória de Manoelito Roque Sá não se limita apenas aos muros do colégio. Ele foi vereador, secretário de administração na gestão do prefeito Carmelito Barbosa Alves e, acima de tudo, um memorialista, cronista da alma cruzalmense. Seus livros, “Actas e Actos” e “A Flor Que Me Conspira”, permanecem como marcos literários, assim como sua presença nas antologias Sonata dos Laranjais e Civilização Azul. Mais do que escrever histórias, ele as vivia e as eternizava.

O próprio Manelito era memória viva, trazendo ao presente as lições do passado, tanto nas páginas dos livros quanto em nossas conversas. Guardo com carinho o exemplar autografado de “Actas e Actos” que ele presenteou-me, um testemunho da sua generosidade intelectual e humana. E, por um mágico fio condutor do Universo, fui na vida secular conhecendo e fazendo amizade com alguns de seus filhos e filhas (Welington, Wilky, Washington e Walkyria), sem sabê-los da relação consanguínea. Só depois que vinha a descobrir que tais pessoas maravilhosas, agora meus amigos, eram filhos ou filhas do querido professor.

Como confrade na Academia Cruzalmense de Letras, onde ocupava a cadeira nº 15 como membro fundador, tive o privilégio de partilhar com ele a paixão pelas letras.

Manelito fez história em tudo o que tocou. Seja como escritor, professor ou político, ele sempre agiu com integridade e compromisso com o bem coletivo. Hoje, ao nos despedirmos, não choramos a perda de um homem. Choramos a saudade da presença física, de uma sabedoria  que iluminava não apenas as mentes, mas também os corações.

Ainda assim, há conforto. Ele é imortal através de seus textos, em cada aluno que ajudou a formar, em cada cruzalmense que se sentiu tocado por sua presença. O Prof. Manelito não foi apenas um cidadão cruzalmense; ele foi um dos pilares desta terra.

Descanse em paz, mestre Manelito. A cidade que você tanto amou e, em especial o Almanaque Cruzalmense, seguirão contando sua história – agora com mais saudade, mas sempre com gratidão.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.