Sim, houve tempos de saudosas disputas escolares. O Colégio Alberto Torres, nosso emblemático CEAT, era palco não só de aulas e ensinamentos formais, mas também de uma efervescente vida cultural e competitiva. Havia saraus, eventos esportivos e, é claro, as famosas tertúlias, momentos em que a inteligência e o talento dos alunos brilhavam diante da comunidade estudantil. Foi em uma dessas tertúlias que se desenrolou uma história que marcou gerações: a disputa de matemática entre Raymundo Fonseca de Souza e Edson da Silva Marques.

O espaço estava lotado naquela tarde. Todos queriam ver o embate intelectual que definiria o título simbólico de “melhor aluno do Alberto Torres”. Dois jovens promissores, de personalidades e estilos distintos, estavam prestes a enfrentar um desafio que, embora acadêmico, tinha ares de duelo épico. A matemática foi escolhida como árbitra para resolver o impasse entre os dois.

Foram-lhes preparados três problemas desafiadores, dos quais apenas um seria sorteado para o confronto. Era uma questão que exigia não apenas conhecimento técnico, mas também estratégia, raciocínio lógico e controle do tempo. Quando o problema foi lido em voz alta, um silêncio reverente tomou conta da audiência.

Raymundo Fonseca, conhecido por sua serenidade e método cuidadoso, começou a desenhar os primeiros traços de seu raciocínio com uma calma quase hipnótica. Já Edson da Silva Marques, com seu estilo arisco e dinâmico, parecia enfrentar o problema como quem resolve um quebra-cabeça em meio a um turbilhão. O contraste entre os dois era fascinante, e a plateia acompanhava cada movimento com olhos atentos, como se pudesse, de alguma forma, participar daquele momento.

Quando o tempo regulamentar chegou ao fim, as soluções foram apresentadas por ambos, respectivamente. O suspense pairava no ar, e o som dos sussurros entre os espectadores era quase inaudível diante da tensão. Finalmente, o resultado foi anunciado: ambos haviam chegado à mesma solução, dentro do tempo estipulado.

A reação foi imediata: uma explosão de aplausos ecoou. Raimundo e Edson foram erguidos como heróis pelos colegas, não por derrotarem um ao outro, mas por demonstrarem, juntos, a força do conhecimento e do esforço.

Para o futuro, a vida trataria de conduzi-los por caminhos igualmente brilhantes. Raymundo Fonseca seguiu seu curso na engenharia agronômica, destacando-se como um dos melhores alunos da Escola de Agronomia e tornando-se referência como professor e servidor público. Já Edson da Silva Marques trilhou uma trajetória similar, alcançando também grande reconhecimento na mesma área. Mas, coincidentemente ou não, o destino lhes reservou, igualmente, até os mesmos cargos: ambos foram Secretários de Agricultura. Raymundo no governo de Antônio Carlos Magalhães e Edson no de Luiz Viana Filho, onde suas contribuições ecoaram para além das fronteiras de Cruz das Almas.

Na memória do CEAT, porém, eles sempre serão os dois jovens alunos que, naquele dia, transformaram um problema matemático em uma celebração do talento e da amizade. A história que começou nas tertúlias do colégio tornou-se inspiração para todos os que acreditam no poder transformador do conhecimento.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.