No Brasil, a história das mulheres negras frequentemente é relegada ao esquecimento. Esse apagamento se reflete nos livros didáticos, nas homenagens oficiais e na memória coletiva. Um exemplo emblemático é a trajetória de Maria Odília Pereira Teixeira, a primeira médica negra do país, que nasceu na Bahia e desafiou todas as barreiras impostas pelo racismo e pelo machismo para alcançar o seu sonho.

Maria Odília nasceu em 1884, na cidade de São Félix do Paraguaçu, no Recôncavo Baiano. Era filha de José Pereira Teixeira, um médico branco de poucos recursos, e de Josephina Luiza Palma, uma mulher negra que havia sido escravizada antes de conquistar a alforria.

Aos 13 anos, mudou-se para Salvador, onde estudou no tradicional Ginásio da Bahia. Determinada a seguir os passos do pai, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, tornando-se não apenas a primeira médica negra do Brasil, mas também a primeira professora negra da instituição.

Em uma época em que o ensino médico era majoritariamente masculino e branco, Maria Odília enfrentou obstáculos adicionais: por ser mulher e negra, foi obrigada a ter um tutor para acompanhá-la nos estudos. O responsável por essa tutoria foi seu próprio irmão, Joaquim Pereira Teixeira, que também estudava medicina.

Formou-se aos 25 anos e, já como médica, lecionava Clínica Obstétrica. Seu trabalho de conclusão de curso abordou o tratamento da cirrose, demonstrando sua dedicação à pesquisa e à prática médica. Além disso, dominava francês, latim e grego, habilidades que a destacavam no meio acadêmico.

Apesar de todo o esforço para construir sua carreira, Maria Odília acabou deixando a medicina após o casamento com Eunísio Lavigne, um renomado advogado ligado a uma família de poderosos cacauicultores de Ilhéus. O casamento foi realizado na cidade de Irará, mas não contou com a presença da família do noivo, que não aceitava a união. Conta-se que a avó de Eunísio desmaiou ao saber que Maria Odília era negra.

Após o casamento, ela abandonou a medicina para cuidar do pai adoentado e dedicar-se à família. Seu marido fez de tudo para que ela continuasse exercendo a profissão, mas Maria Odília dizia que sua verdadeira paixão era cuidar do lar.

O casal teve dois filhos, e sua descendência seguiu o caminho da medicina, com filhos, netos e bisnetos formados na área.

Maria Odília faleceu em 1970, aos 86 anos, deixando um legado de luta e resistência. No entanto, sua história permaneceu esquecida por décadas, sem o devido reconhecimento nos livros de história ou nas homenagens acadêmicas.

Cabe a nós resgatar e divulgar trajetórias como a dela, para que figuras pioneiras como Maria Odília Pereira Teixeira não sejam apagadas da memória baiana e brasileira.

Que sua história inspire futuras gerações de mulheres negras a ocuparem os espaços que lhes foram negados por tanto tempo.

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