No meio da semana que findou, perguntei ao grupo de membros do Almanaque Cruzalmense por que, lá pelos anos de 1940, parecia que um grande número de jovens de Cruz das Almas havia ingressado na Marinha do Brasil, cruzalmenses tornando-se marinheiros. Nenhum comentário como retorno, mas uma resposta acabei encontrando nas “Memórias e Confissões do Menino do Araçá” de Sêo Alyrio Mendes, escritor patrono da cadeira nº 13 da Academia Cruzalmense de Letras e que, também, em vida, foi um membro atuante do grupo no Facebook.

Em seu livro, Sêo Alyrio conta que sempre quis ser marinheiro. Já em 1940, sonhava com o uniforme branco impecável e o mar infinito à sua frente. Para isso, começou a se preparar com afinco, dedicando-se a um curso intensivo sob a orientação de sua antiga professora, Semiramis. Mas por quê? Por que a Marinha e não outro caminho? Ele mesmo se fazia essa pergunta quando alguém o questionava.

Foi então que se permitiu revisitar a memória, vasculhar as lembranças e entender a origem desse desejo. E lá estava a resposta, escondida nos anos de sua infância. Por volta de 1936 ou 1937, tinha cerca de dez ou onze anos quando, certo dia, recebeu a tarefa de ir à venda de Henrique Mathias comprar alguma coisa. Ao atravessar a rua, avistou uma figura diferente: um homem alto e magro, vestindo uma roupa mescla, um gorro branco na cabeça e, na mão, um ioiô que subia e descia com destreza. Nunca antes vira algo assim.

Curioso, perguntou ao caixeiro João de Henrique quem era aquele sujeito distinto. “É Gu de Zé Vicente”, respondeu João, e completou: “Ele é marinheiro.” O marinheiro passeava todas as tardes pela Rua da Vitória, ora vestido de mescla, ora de azul-marinho, ora de branco – e cada traje acompanhado por um chapéu diferente.

O menino Alyrio ficou fascinado. A cena do homem de uniforme jogando ioiô gravou-se em sua mente como uma fotografia inesquecível. Precisava saber mais. “O que é que um marinheiro faz?”, perguntou ao caixeiro. “Anda no mar, viaja o mundo todo, conhece tudo quanto é lugar.” Era o suficiente. Ele também queria aquilo.

“Vou ser marinheiro, João”, declarou com convicção. Mas João logo o trouxe de volta à realidade. “Você não pode ainda ser marinheiro, só quando tiver mais de dezoito anos.” Alyrio fez as contas: faltava muito tempo. Mas descobriu que existia a Escola de Aprendizes Marinheiros, onde poderia ingressar antes disso.

Na cidade, corriam histórias sobre os tempos antigos, quando meninos eram levados à força, “pegados a dente de cachorro”, para serem enviados à Marinha. Agora não. Agora era preciso passar por uma prova difícil, um concurso exigente. Alyrio não se assustou. Sempre tivera pressa de viver, de alcançar logo o que queria. Dar-se-ia um jeito.

Não demorou a comunicar sua decisão ao pai. Disse-lhe que queria entrar para a Marinha, que muitos conhecidos estavam indo e que era a sua vez. O mar o chamava, e ele não hesitaria em atender.

E assim, após ter sido aprovado no tal exame, em janeiro de 1941 o jovem Alyrio, juntamente com outros dois colegas cruzalmenses (Pedro Nolasco conhecido como Beca Peixoto e Estevam Barbosa Alves, de apelido Marôto), finalmente apresentaram-se na Escola de Aprendizes Marinheiros da Bahia.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.