Lendo Renato Passos da Silva Pinto Filho, através das memórias de Renatinho, que conta-nos em sua obra “Cruz das Almas dos Meus Bons Tempos” quando o reinado de Momo se instalava em Cruz das Almas com uma energia que só os antigos carnavais possuíam, quase dá para ouvir os clarins de um Bando Anunciador numa manhã de domingo de Carnaval que ecoavam pelos ares como lembranças que flutuam no tempo, confetes levados pelo vento. É o som de um passado que insiste em brincar na memória.

Nos anos 30 e 40, o Carnaval cruzalmense, que era chamado de “Mi Carême”, se espalhava pelas ruas com blocos de caretas, mascarados de identidade secreta, vestidos de pierrôs de estampas vibrantes, que desfilavam pela cidade brincando de importunar os passantes. O jogo era conhecido e ao serem questionados: – Careta, cadê a greta?
Os garotos respondiam com a irreverência que só o espírito folião sabia conduzir: – Tá no cu de Marieta!
E saíam correndo, misturando-se à multidão, deixando risos e espantos pelo caminho.
As batalhas de confetes coloriam os ares antes e depois dos bailes no Cruz das Almas Clube, no Mercado Municipal, na Euterpe, na Lira. Mas era na Praça Senador Temístocles que a folia se assentava com toda sua glória. No meio da tarde, carros enfeitados do corso desfilavam majestosamente, enquanto centenas de foliões rodavam pelos jardins, entrelaçados pelas serpentinas lançadas dos blocos, dos cordões, dos mascarados com cornetas, apitos, bisnagas em forma de bananas cheias de água vendidas nas barraquinhas e os vendedores de rolete completavam o cenário da festa. O Bumba meu Boi de André Derrapante misturava-se aos grupos de bailarinas, melindrosas, ciganos, piratas, índios e cowboys.


Nos anos 60, nas ruas ecoavam o som das charangas e, entre elas, a “chupa catarro” que acompanhava Davino, o alfaiate travestido de bebê chorão, de bico na boca e chocalho nas mãos, no cordão que levava esse mesmo nome: Bebê Chorão. Na batucada, a Escola de Samba de Leonel Bambá riscava passos pelo ar, cuícas e pandeiros ditando o ritmo do cortejo. Leonel, de pernas tortas e apito na boca, mantinha a cadência rigorosa, como um maestro conduzindo sua orquestra de batuques e sorrisos.

Havia também os Caboclos. Surgiam como visagem, seus corpos e rostos pintados com traços de ocre vermelho-terra e adornos coloridos que reluziam sob o sol de fevereiro. Não eram apenas personagens de uma festa, eram entidades vivas de um tempo ancestral que se confundia com a fantasia do carnaval. Durante os dias de folia, saiam do Beco do Cinema. Ali, aqueciam os tambores de couro, organizavam-se em ritos próprios e partiam em cortejo pelo grande quadrilátero da praça.


A praça, aliás, era o palco onde desfilavam marujadas, ternos diversos, burrinhas, zabumbadas, afoxés e as tão aguardadas pranchas — caminhões ornamentados que transportavam princesas vestidas com trajes de época e figuras míticas como A Cigarra gigante e o Peixe Voador. Os blocos e os ternos, com suas roupas padronizadas, desfilavam numa cadência que misturava religiosidade e profanidade. Nos clubes, bailes e concursos de fantasias reforçavam a identidade desse carnaval que era, ao mesmo tempo, recôncavo e universal. O Nossa Terra noticiava a grandiosidade dessa festa, que atraía até visitantes da capital.


Mas, com o passar das décadas, a folia foi se transformando. Nos idos dos anos 1970, o carnaval de Cruz das Almas começou a perder suas manifestações culturais originais, mas eis que surge o Trio Carbasa, um marco revolucionário do carnaval cruzalmense. Os blocos tradicionais deram lugar às mortalhas e aos macacões dos grupos carnavalescos mais jovens e despojados, como o Liga Lá, o Xeirando Ela e Os Marroquinos.


Lá pelos anos 1989 e 1990, o carnaval de Cruz deu lugar às micaretas, numa tentativa de manter viva a chama da festa. Mas a magia já havia se perdido.


Ou não…


Pode não ter os clarins do Bando Anunciador, mas as bocas de alto-falantes carbasianas do Chora Bananeira ainda soam como um eco potente seguido pelas caretas resistentes, num lembrete de que, em algum tempo e em algum lugar da memória, Cruz das Almas já viveu carnavais que não existiam apenas nos calendários – eles moravam na alma de seus foliões.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.