O som das bocas de alto-falantes anuncia o reino momesco cruzalmense, trazendo consigo ecos de um passado que teima em se reinventar. O Carnaval de Cruz das Almas, outrora esquecido nos confins da memória afetiva da cidade, renasce a cada fevereiro (às vezes março, como é o caso do presente ano) com um fôlego novo, puxado pelo Chora Bananeira.
Quando Marcelo Som teve a ideia, lá em 2007, parecia apenas que era uma brincadeira entre amigos, um encontro casual dos que ficavam na cidade enquanto outros partiam rumo ao descanso na Ilha ou à folia de Salvador. Mas os que ficavam tinham sede de festa, de som e de dança. E assim, nasceu o “Bloco dos Que Não Foram”. Começou modesto, um ajuntamento de foliões resistentes, embalados por um desejo quase nostálgico de brincar o Carnaval na própria terra.
Os anos passaram, o balanço envolvente e os acordes da guitarra baiana de Robertinho Lago se misturaram com a vozes potentes de Cassia Maria, de Ura, de Haroldo e de tantos outros artistas cruzalmenses. O pequeno cortejo virou multidão, e o bloco que era refúgio de quem ficou tornou-se destino de quem veio. Agora, Cruz das Almas era um ponto de encontro da folia.
E, como um laço entre passado e presente, o som que ecoa dessas bocas de alto-falantes instaladas no caminhão do Chora Bananeira guarda um segredo: são as mesmas que, um dia, deram voz ao saudoso Trio Carbasa. Quem diria? O espírito do antigo trio vive, vibrando entre as ruas e praças, soprando alegria na multidão.
“Ah… imagina só / que loucura / esta mistura…”.
E a cada ano, o cortejo cresce, arrastando memórias, criando novas histórias. Cruz das Almas canta, dança, veste-se de cores e caretas. Ah, as caretas! Quem diria que a resistência carnavalesca da cidade também traria de volta esses personagens típicos, essas figuras mascaradas que correm entre os foliões, assombrando e encantando como nos carnavais de antanho?
…mas essa, meus amigos, já é história para uma outra crônica!

