Em Cruz das Almas, no planalto do Recôncavo baiano, um nome é lembrado com respeito e saudade: Padre Julian Edward Josef Claes, ou simplesmente Padre Julião. Nascido em Harderwijka, na Holanda, em 5 de setembro de 1918, esse sacerdote, professor e engenheiro agrônomo encontrou no Brasil, e mais precisamente em Cruz das Almas e região, o campo para sua missão de vida. Chegou ao país em março de 1969, portanto há 56 anos, para assumir como vigário da Paróquia Nossa Senhora do Bom Sucesso, e desde então, dedicou-se integralmente à educação, à evangelização e ao desenvolvimento social, especialmente na zona rural.
Padre Julião tinha uma personalidade singular: humilde, carismático e brincalhão. Sua presença era sinônimo de acolhimento e sua dedicação ao povo ia muito além do altar. Em 1977, fundou a primeira Escola da Família Rural em Sapeaçu, um projeto revolucionário que buscava educar jovens do campo sem desconectá-los de suas origens. Os alunos passavam 15 dias na escola e outros 15 dias em casa aplicando os conhecimentos adquiridos. Além das disciplinas convencionais, aprendiam sobre apicultura, zootecnia e outras técnicas agrícolas. Esse modelo de ensino, mantido com apoio de filantropos belgas, impactou profundamente a região, formando gerações de trabalhadores qualificados e conscientes de sua realidade.
O sacerdócio de Padre Julião era pautado pelo trabalho social. Com suas próprias mãos e a ajuda de amigos e voluntários, construiu o Centro Paroquial de Cruz das Almas, um espaço de acolhimento e formação comunitária. Era um homem de fé e ação, que compreendia que a evangelização também passava pela transformação social. Sua maneira simples e afetuosa de conduzir as missas encantava fiéis, a ponto de haver “disputa” entre os coroinhas para servir no altar, pois suas celebrações eram céleres e envolventes.
O legado de Padre Julião ganhou ainda mais força com a criação do Centro Promocional Rural da Bahia, em 1978, e do Centro Educacional de Maragojipe, em 1979. Essas instituições consolidaram seu compromisso com a educação e a melhoria das condições de vida da população mais necessitada.
Infelizmente, sua jornada foi interrompida tragicamente em 28 de junho de 1998, em um acidente de carro na Cajá. Quem testemunhou lembra quando o Fusca Itamar creme que o conduzia atravessou a pista sem parar, colidindo violentamente com uma camionete. Seu companheiro de viagem, Argemiro, faleceu instantaneamente, e o motorista da camionete, em choque, apenas levava as mãos à cabeça, em desespero.
Padre Julião foi um verdadeiro apóstolo da caridade e da educação. Seu sorriso fácil e seu olhar acolhedor ainda vivem na memória de quem teve o privilégio de conhecê-lo. Sua obra continua inspirando aqueles que acreditam na força da educação e da fé como agentes de transformação social. Cruz das Almas e toda a região devem a esse sacerdote muito mais do que palavras de gratidão: devem o compromisso de manter viva sua missão.


