Parece-me, antigamente, o período da Quaresma em Cruz das Almas tinha um peso próprio. Sim, eram quarenta e poucos dias do ano em que o ar ficava mais denso, as conversas mais baixas e o riso, se ousasse escapar, era logo engolido por um olhar severo.
Isto no meu entender de menino, à época, fique claro.
Na casa de minha avó materna, Dona Du, a fé católica não era um adereço. Era coisa séria, inerente, daquelas que se plantava na pessoa logo ao nascer. Desde o início da Quaresma, um silêncio grave se instalava por ali, como se a casa, de repente, aprendesse a sussurrar. As brincadeiras tinham hora e limite. As palavras, então, eram medidas com régua e compasso.
O rádio, que tantas vezes foi nosso portal para o mundo, era deixado de lado, coberto por um pano, como que livrando-nos da profanação. Música? Só se fosse um cântico piedoso. Até mesmo a vassoura repousava tranquila no canto da cozinha, proibida de varrer os pecados da casa antes do sábado de aleluia.
Nesse tempo não se comia carne vermelha. Havia ovos, frango e peixe. Minha avó não era mulher de grandes pratos, mas na ceia da Quinta-feira Santa ela se superava. O melhor peixe que o dinheiro podia comprar era preparado com todo o esmero e carinho. Era como se servir aquele alimento fosse também um ato de fé. Comíamos todos à mesa, em silêncio, como se cada garfada fosse uma oração.
Os adultos, tomados por aquela seriedade religiosa, pareciam até menos humanos, pois quase viravam santos. Nós, crianças, olhávamos para eles com a inquietude de quem não compreendia a lógica daquele peso todo. Pular, correr, brincar… tudo parecia impróprio. E se alguém tinha o azar de fazer alguma traquinagem, não havia castigo naquele dia. A disciplina ficava reservada para o Sábado de Aleluia, quando se dizia que o couro comia e o que estava guardado finalmente se acertava.
Mas se havia um momento em que a cidade inteira parecia suspirar em consonância religiosa, era na Semana Santa. A Última Ceia, o rito do lava pés, a encenação teatral da “Vida, Morte e Ressurreição de Cristo” no centro da cidade, tudo comovia a todos. Havia também o dia da solene Procissão da Paixão de Cristo, em sua marcha lenta, os cânticos tristes, as velas acesas, a matraca, o silêncio ensurdecedor do sino… Tudo aquilo parecia transformar as ruas em um cenário bíblico.
Ainda me lembro do rosto das pessoas se iluminando pela luz bruxuleante das velas, olhos marejados como se a Paixão de Cristo estivesse acontecendo ali, diante de todos nós. Cruz das Almas, por alguns instantes, se tornava uma Jerusalém, de pedra e de barro.
Mas o alívio, para nós que éramos crianças, só vinha no Sábado de Aleluia. Era como se, de repente, o mundo inteiro pudesse respirar outra vez. A casa recobrava seu ritmo. O rádio voltava a ser ligado, a vassoura voltava ao trabalho e, finalmente, a algazarra das crianças era permitida.
Ah… e contam os adultos mais antigos, que era também o dia de ir ao Cine Glória assistir a “O Rei dos Reis”. Aquele filme que parecia dar cores à fé, até então, feita de sombras e silêncio. A voz de Jeffrey Hunter como Jesus ecoava na mente dos que assistiam por dias.
O tempo passou, a modernidade chegou e muita coisa mudou. Mas vez ou outra, quando um cheiro de peixe cozido invade minhas narinas, me vem a memória daquele peso, daquela esperança e, principalmente, daquele sentimento de redenção, um período que tornava tudo suportável e, de algum jeito, hoje entendo, fazia-se necessário.
Obrigado, Vó Du!
(Ah… e sobre o Domingo de Páscoa? Falo em outra crônica!)

