O ano era 1996. E a cidade que nunca havia visto aquele tipo de movimentação, carros de produção de tv, equipamentos de filmagem, atores globais desfilando pelas ruas ou encenando nos salões da Suerdieck; e nós, os moradores, extasiados, como se figurantes fôssemos daquele espetáculo. Cruz das Almas havia se tornado em Tabacópolis, a fictícia cidade da telenovela O Fim do Mundo, da Rede Globo de Televisão, e por alguns dias respiramos o mesmo ar que Norton Nascimento, Patrícia França, José Wilker e Bruna Lombardi.
Lembro bem da multidão que se formava diariamente defronte à Pousada de Themis. Parecia que todo mundo queria ao menos um vislumbre dos astros da TV. José Wilker, com seu jeito irreverente, era Tião Socó em cena, mas fora das câmeras, um sujeito espirituoso, desses que dominam qualquer conversa. Bruna Lombardi, por sua vez, era uma visão. Bela, elegante, quase etérea.
Eu era um jovem vendedor da Jet-Set Modas, uma loja vizinha à Don Lanches, a lanchonete onde Bruna e Wilker, certa tarde, resolveram fazer uma pausa. Assim que os vi passando, seguidos por uma procissão de curiosos, algo em mim se moveu. A vontade de me aproximar foi maior que a timidez. Furei o bloqueio de olhares, ombros e cochichos, e de repente, ali estava eu, junto ao balcão dentro da lanchonete, cara a cara com… Bruna Lombardi!
— Bruna, acabei de ler seu livro O Perigo do Dragão. É maravilhoso!
Ela sorriu. Um sorriso que parecia iluminar a lanchonete. Me olhou nos olhos, como se naquele instante, entre um gole de suco e um bocado de sanduíche, eu fosse a única pessoa ali.
— Que bom saber disso! É um livro muito especial para mim — respondeu, com a voz suave, mas cheia de entusiasmo. E deu-me um autógrafo num post-it, como registro daquele momento.
José Wilker riu, olhando para mim como quem dizia: “E não é que o garoto tem bom gosto?”. Fiquei ali, petrificado, tentando absorver aquele momento improvável.
Outro episódio marcante desta memorável ocasião foi a visita de Wilker à Casa da Cultura Galeno D’Avelírio. No pequeno palco do Teatro do Porão, ele declamou um poema com aquela voz inconfundível e, ao final, soltou uma pérola:
— Este é o menor teatro do mundo!
E riu, riu com aquele jeito dele, enquanto os poucos presentes aplaudiam.
O tempo passou. O Fim do Mundo virou lembrança na teledramaturgia. A Suerdieck também acabou. Mas ainda há quem conte essas histórias como se elas tivessem acontecido ontem.
Para nós, que vivemos aquele momento mágico, a gravação dessa novela nunca chegou ao fim. Assistir, assistir mesmo quando a novela foi exibida, ninguém assistiu. Mas da gravação em Cruz das Almas, ah… todos lembram!



