REFLEXOS
Nesta semana que passou, talvez tomado pelas recentes emoções vividas, tive um sonho bonito. O detalhe é que não costumo sonhar, nunca. Ou, se é que sonho, não costumo me lembrar depois, ao acordar. Então, este certamente é um episódio muito especial para mim.
No “sonho”, eu não estava em Cruz das Almas, mas num lugar onde estavam as almas de Cruz. Parecia mais um grande terreiro iluminado por estrelas que piscavam como lamparinas antigas. No meio de uma imensidão azul, onde as verdes copas das árvores se confundiam com as brancas nuvens do… céu? Havia um coreto parecido com o nosso bangalô (e que também chamamos de coreto). Ah, pois! E ele resplandecia, pude então perceber que era cercado por um extenso jardim onde flores nasciam ao som de poesias.
Logo reconheci por ali alguns ilustres conterrâneos: o amigo Luciano Passos, que ajeitava os óculos enquanto organizava alguns papéis sobre uma mesa etérea. Um pouco mais adiante, sob um flamboyant de flores vermelhas, sua tia Jacinta Passos, militante, declamava livremente versos lírico-político-feministas com a intensidade de quem nunca se cansou de sonhar com um mundo mais justo.
Parado em frente a uma casa de número 522, Galeno D’Avelírio, com sua elegância literária, enfeitava o encontro com versos e metáforas que brilhavam no ar como vagalumes.
Eis que, esbaforido, mas envolto numa linda aura dourada, chega Cícero Nazareno distribuindo abraços, sorrisos e… caramelos. A bondade era sua assinatura, e até no plano espiritual ele fazia questão de acolher a todos.
Logo depois, a artista Glaucia Guerra apareceu, trazendo consigo cores e formas que só os olhos da alma podiam captar. Conversava com Dona Zinha Costa, sempre delicada, que carregava consigo um livro de poesias escrito à mão, feito um bordado, e lia trechos que arrancavam sorrisos nostálgicos dos presentes.
— Se tem um encontro, tem que ter um “causo”! — exclamou Rei Cônsul, surfando em cima de uma nuvem fofinha, tal qual ele ficava no alto da antiga Pérgola. E começou a narrar uma história engraçada do imaginário popular de Cruz, enquanto o professor Manoelito Roque Sá assentia, corrigindo, de leve, uma ou outra incongruência histórica.
O Cônego Antônio da Silveira Franca também caminhava por ali, devagar, com sua imponência serena, lembrando a todos a importância da fé e da educação.
Perto dali, avistei também (e que honra!) o senador e médico Dr. Ribeiro dos Santos, aquele mesmo da Fonte do Doutor, que animadamente conversava com o duplo leonino Welington Sá. E conversavam sobre a possibilidade de, imaginem, publicarem uma revista psicográfica chamada Reflexos da Eternidade.
De repente, eis que pára o táxi de Risadinha no ponto da praça e desce uma passageira. Uma nova presença faz-se notar. Era Risolete que estava chegando, trazendo consigo um sorriso largo e um desejo incontido de celebrar a vida – e a eternidade – com um bom sarau. Ao perceberem sua chegada, todos aplaudem, e Sêo Alyrio estende-lhe a mão, convidando-a a juntar-se a eles.
— Olhem, vejam só… a mãe de Dona Graça chegou!
A melodia de um bolero ecoava pelo ar, parece que saindo dos serviços de alto-falantes de Hermiro, de J. Silvão, de Honorato Azevedo e de Silvestre Caldas. Era como se o próprio cenário conspirasse para dar àquele encontro um toque de encanto e nostalgia. Dona Riso fechou os olhos por um instante e, ao reabri-los, viu Zeca Salomão estendendo-lhe a mão para uma dança. “Aqui também temos nossos saraus, D. Risolete”, ele disse com um sorriso. “E a eternidade nos dará tempo de sobra para dançar cada bolero que o coração desejar.”, completou Cícero Caramelo.
O grupo seguiu em conversas, declamações e músicas, enquanto as estrelas brilhavam ao ritmo da melodia. Parecia que aquele espaço, que lembrava a nossa praça numa versão celestial, ao mesmo tempo transformara-se num grande pátio da Casa da Cultura. E, naquele meu… sonho?, vi o sorriso de Rei Consul olhando pra mim e acenando com a cabeça. Senti que a Memória de Cruz seguia viva, e cada alma ali presente também sabia que, enquanto fossem lembrados e lembradas, jamais deixariam de existir na eternidade, “assim na terra, como no céu”!

