A VIDA NA VELHA ESTAÇÃO DE POMBAL
Por vezes, as lembranças nos escapam feito trem em alta velocidade, deixando para trás apenas o eco de algumas poucas vozes da memória. Há lugares do passado de onde não se encontra um só retrato: nenhuma fotografia de J. Nogueira ou, sequer, uma pintura de Sêo Zeca Salomão. Mas ainda assim persistem, mesmo em ruínas, como cicatriz bonita que não se deve esconder. A velha Estação Ferroviária de Cruz das Almas — a nossa querida Estação de Pombal — é um desses lugares.
Ali, mais do que embarques e desembarques, o tempo fazia suas escalas. A plataforma era palco e plateia, cenário de encontros, despedidas, namoros iniciantes e choros com lenço na mão. Cada trilho parecia levar não só a Cachoeira, Salvador ou mesmo a Minas, mas também aos sonhos dos cruzalmenses. Tinha o jornal que chegava trazendo notícias da capital. Era como se a cidade inteira, nos tempos bons, girasse ao redor daquele relógio da Estação.
Tinha sempre um vaivém de gente e histórias. Seu Catarino, empregado ferroviário, morava ali pertinho, zelando pelos horários com a precisão de quem entende que pontualidade é uma forma de respeito. O chefe da estação, de uniforme engomado, era quase uma autoridade local , presença, e voz firme no apito que autorizava a partida. Trabalhadores da manutenção, da troca dos dormentes, da limpeza, da bilheteria — gente que dava dignidade e pulso ao lugar.
Mas havia também os invisíveis de farda nenhuma: os ambulantes. Era ali, na plataforma, que a economia popular dava seus passos, com vendedores de rolete de cana e laranja descascada na hora. O mais ligeiro vendia, o mais devagar perdia — o trem não esperava, e o freguês, espertinho, às vezes pegava e corria. Mas, no fundo, todo mundo se conhecia. Havia um pacto silencioso de convivência e improviso.
Do outro lado do trilho, o arraialzinho fazia cócegas no tempo. Casas simples, vida singela. O açougue ficava perto. E a venda de Seu Zebois, em frente à Estação, era ponto de parada obrigatória para um gole, uma prosa ou uma espia no movimento. Ao largo, o Rio Capivari seguia seu curso, não como agora, mas caudaloso, cortando fazendas e cultivando mistérios à margem.
E nos domingos, ah, os domingos… A Estação virava salão de festa ao ar livre. Rapazes empurrando suas bicicletas, moças de vestido rodado com sonhos no olhar, casais enamorados de mãos dadas e até famílias inteiras seguiam pra lá só para “ver o trem”.
Era uma época em que a Estação não dividia apenas caminhos; ela costurava laços. Era mais que concreto e ferro. Era identidade.
Hoje, esquecida entre o mato e os escombros, a Estação ainda fala. Sussurra lembranças nos ventos que varrem a plataforma silenciosa. Quem mora ali por perto ainda sente o cheiro do óleo queimado, escuta o pregão dos vendedores, e enxerga a fumaça se dissolvendo no céu de fim de tarde.
A Estação de Pombal, mesmo desativada, ainda pulsa. Vive na lembrança dos que trabalharam ali, dos que viveram suas rotinas ao redor dela, dos que sonharam com as cidades distantes sem nunca sair de Cruz. Porque ali, naquele pedaço de chão de trilhos, estava também o coração de uma Cruz das Almas que aprendeu (e esqueceu?) a ouvir chegadas e partidas pelo barulho do trem.

