Poderia ter sido ontem, mas foi lá pelos idos tempos em que o mundo ainda andava mais devagar, quando os meninos brincavam de parangolé e bola de gude e os adultos se juntavam pra contar causos sem precisar de internet: Cruz das Almas fervia no Sábado de Aleluia. Fervia, literalmente, porque era dia de queimar o famigerado Judas, e queimar com gosto, com risada, com forró e com poesia matadeira.
Não sei se era a alma lavada da Quaresma ou se era só a vontade de ver o “mar pegar fogo para comer peixe frito”, mas o povo esperava o Sábado de Aleluia como quem esperasse a festa de São João. E o pobre do Judas, safado, pagaria não só por sua traição a Nosso Senhor, mas pelos traidores da Pátria, dos pecadores da rua ou pelas indignações acumuladas no ano. Feito com palha, roupa velha e recheado de fogos de artifício, o Judas era um boneco dependurado em alguma cerca, poste ou árvore frondosa, sempre cercado de curiosos e risadas.
Na pequena, mas badalada Praça dos Artistas — ali defronte à Sociedade dos Artífices — a cena era mais que tradicional: era sagrada. Lá, o promotor-mor do rebuliço era ninguém mais ou ninguém menos que Zeca de Padre, cabra danado de entusiasta, que organizava a pantomima como quem produzia uma ópera popular.
E aí vinha o momento mais esperado: a leitura do testamento do Judas.
Seo Zinho, no dia a dia trabalhava na Escola de Agronomia, mas sua verdadeira lavoura era a poesia matuta. Era ele o responsável por esse momento sublime. Sua filha conta que Seo Zinho tinha um caderno onde guardava todos os testamentos que já havia escrito. Seo Valter Rebouças era outro que, dominando a escrita e a rima, fazia a leitura do temível testamento. “O Judas morreu, não teve o que deixar…”, dizia um dos motes mais célebres. E a cada verso, gargalhadas do povo que reconhecia nas entrelinhas do deboche um vizinho, um político, o delegado, o puxa-saco da prefeitura e até o padeiro.
Tinha Queima de Judas no Bar Karranca, com direito a forró depois, comandado por Zé da Sanfona — que tocava como quem espantava assombração. No Bar de Pim também, o Judas era pendurado bem na frente, e quem quisesse uma cerveja precisava passar debaixo das pernas do condenado. No Quiosque de Heraldo, a festa era tão animada que, contam, já teve vez de queimarem dois Judas: um de noitinha e outro já amanhecendo, só pra ter desculpa de recomeçar a farra regada a muita cerveja.
Mais recentemente, os mais jovens lembrarão (jovens que já passaram dos 30, fique claro!), do Sábado de Aleluia esperando “a bola de fogo subir”, com Bruno Silva e Banda Sarapatel com Pimenta. Mas daí já é história pra uma outra crônica…
E pelas roças? Ah, ali o Judas era malhado entre gritos e litros de licor divididos aos goles entre os presentes. Embriagados, cada um já declamava seus próprios versos para o testamento do Judas. E não raro, tudo terminava em samba de roda improvisado.
Mas o tempo, esse malandro de sapatos silenciosos, foi levando essas tradições para o esquecimento. Hoje, poucos lembram-se do cheiro de pólvora, do boneco estourado com os fogos de Amado Queiroz, de Totônio da Estrada de Ferro ou de Regi Fogueteiro.
Quem mais lembra das crianças gritando “Pega fogo, Judas!”?. Mas quem viveu, sabe.
E no fim, era sempre igual: o Judas explodia, o povo aplaudia, e Zé da Sanfona puxava um xote arretado.
E a vida seguia seu rumo, mais leve e mais viva.

