UMA VIVÊNCIA DE FILOSOFIA, SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA

Quem viveu a Cruz das Almas do final dos anos 60 até o início dos anos 2000, tem noção, pelo menos, que havia um ponto de encontro onde a simplicidade se vestia de festa e a prosa tinha gosto de tira-gosto, cerveja e amizade. Era “O Barrão – Bar e Restaurante”; ou simplesmente o Bar de Barrão, modesto no nome, mas gigante na memória afetiva de quem por ali passou.
Nilton Barrão, o dono, era um daqueles sujeitos que pareciam saídos de um romance de Jorge Amado: simpático, acolhedor, com um sorriso sempre pronto, a camisa sempre aberta no peito e um fã das canções que o Roberto cantava. Seu estabelecimento ficava ali, na Avenida Alberto Passos, perto da Praça Senador Temístocles. Ou como dizia-se à época: “ficava na Avenida, perto da Praça!”. Era um tempo quando a cidade ainda respirava devagar e as tardes, quando o sol ia se pondo atrás dos laranjais ou descendo no horizonte dos campos de fumo, pareciam que tinham mais horas.
A clientela era um retrato colorido do Brasil que deu certo. Agrônomos pesquisadores da Embrapa (doutores!), professores da Escola de Agronomia (doutores!) e alguns de seus estudantes (futuros doutores!), professores do CEAT (quase doutores!), gerentes dos armazéns de fumo (chamados doutores!), doutores médicos e outros doutores (advogados, rábulas, etc); mas também o povo simples, da terra, da lida e da labuta. Democrático por natureza, o Bar de Barrão não fazia distinção. A amizade era o único requisito de entrada.
Ali encontravam-se algumas figuras bem conhecidas na cidade: além de Nelson e Bel de Renério, presenças certas eram as de Nem Grande, Leonel Bambá, Caxixi, Xangó, Lula de Irineu, Capitão, Viola, João Roberto, Zelito, Washington de Zé de Afonso, Luiz Francisco, Tancredo, Zeca Macaco, Bau de Cotinha, Deraldo, Gilson Cochoco, Luciano Gomes, Zelito, Prof. Cleomário, Renê de Romualdo, Zé de Conta, Edson Chiacchio, Bui de Carmelito, Hamilton Cerqueira, Dória, Biquita, Galinho, Arturzinho, Euricles, Zeca Dois Véi, Zé Jorge, Heraldo Marques, Ranulfo, Jaime de Baé, Muritiba, Toinho Silveira, Luiz de Leli, Nanau, Santo Bicudo, Aloísio Gogó, Almiro, Carlinhos Gerônimo, Jão de Rubinho, Bel de Seo Dinho, Carrapeta e tantos outros — cada um com seu jeito, suas histórias e suas manias. Todos parte daquele cenário quase filosófico que era o icônico bar.
Lá dentro, indubitavelmente, um antro masculino; um pequeno salão sem frescura e sem luxo. Nada de cardápio elaborado ou apresentações gourmetizadas. A alma do lugar estava nas bandejas gordurosas de carne de sol, na passarinha dourada, na pititinga crocante, no torresmo estalando, no mocotó fumegante e na tripa frita cheirando a pecado da gula. No máximo, três opções por dia — e olhe lá. Às vezes, um bolo, uns salgados. E pronto! E no Carnaval, a tradição da Lavagem do Bar de Barrão ganhava fogo e fumaça com o churrasco no espeto — uma farra só.
As bebidas? Poucas, mas fiéis e honradas: cerveja bem gelada, cachaça da boa, um Fernet, um Underberg pra fazer careta e um vermute que descia quadrado, mas valia a conversa. Copos americanos e pratos duralex, arranhados pelo tempo, como se carregassem as histórias de quem os usou. Cada um se servia. Pegava sua cerveja, dosava sua purinha, preparava seu traçado. Havia ali um improviso coletivo bonito de se ver: um prato era feito, saía do balcão, e ia rodando de mão em mão — e de boca em boca — como o mais nobre dos banquetes. E ninguém reclamava de nada. Comiam e bebiam como se estivessem num restaurante de estrelas Michelin. Porque ali, naquela convivência honesta e despretensiosa, morava uma sofisticação rara: a da verdadeira humanidade.
No caixa do bar havia uma caderneta velha, de espiral enferrujado, folhas manchadas de suor e cerveja, onde se anotava tudo que seria cobrado depois (nada era cobrado, mas tudo era acertado!).
Barrão abria as portas do bar como quem abre os braços e o povo ia chegando em bando, como quem estivesse entrando em casa. A conversa era certa, falava-se de futebol, contavam-se piadas de mau-gosto, uma ou outra fofoca da vez, mas o assunto que quase sempre imperava era “a política” — mas veja bem: política de verdade, da que se discutia com argumentos (falsos e verdadeiros), respeito (e algumas palavras de baixo calão) e um copo na mão (“para molhar a palavra” diziam!). Quantos futuros vereadores não foram formados ali? Os melhores.
E olha que eram tempos duros, ainda sob a sombra do último general da ditadura — aquele do “prendo e arrebento” e tal. E, mesmo assim, entre goles e risos, surgiam análises lúcidas, críticas afiadas, debates profundos. O álcool era brasa, verdade; mas a conversa era luz.
No rol dos mistérios de Cruz das Almas, dizem alguns que até Raul Seixas, do Raulzito e os Panteras, quando veio tocar no Cruz das Almas Clube, já terminou a noite por lá, nos fundos do Bar de Barrão, onde a música virou sussurro e o roqueiro se misturou com a alma do povo. Se é verdade ou não, pouco importa. O que vale é o que ficou no imaginário: Raul, com um copo de cerveja na mão, ouvindo Nem Grande contar uma cuiúda, enquanto Barrão observava tudo por trás do balcão, com aquele seu jeito de dono de casa bonachão.
O Bar de Barrão, definitivamente, não era um lugar qualquer. Era sim um território afetivo, uma embaixada da amizade. Amizades que independiam de status, classe social ou condição financeira. Um ponto de encontro onde Cruz das Almas se reencontrava consigo mesma. Não era sobre o que se comia ou bebia, mas sobre como se vivia — com leveza, verdade e uma alegria danada de bonita. Inclusive, o estabelecimento mereceu um poema, o “Barroterapia”, uma ode de autoria do poeta Cyro Mascarenhas, um de seus jovens e ilustres frequentadores à época, hoje imortal da Academia Cruzalmense de Letras. Se você não conhece ainda, procure o poema para ler. É maravilhoso!
E Barrão, que não era só dono, mas o mentor espiritual do lugar, merece aqui o nosso brinde com copo americano e cerveja bem gelada.
Pela generosidade, pelo acolhimento, pelo sorriso e por ter feito do seu bar um grande lar cruzalmense, a Nilton Barrão, de saudosa memória — nossa eterna gratidão!

