E A DEVOÇÃO DAS MÃOS OPERÁRIAS

Em Cruz das Almas, houve um tempo em que fé e trabalho caminhavam de mãos dadas pelas ruas da cidade. Era no dia 19 de março, quando as operárias da Fábrica Suerdieck, trocavam os seus aventais marcados pelo cheiro doce e forte do fumo, botavam a melhor roupa e organizavam com esmero a procissão da imagem de São José Operário — padroeiro da labuta diária, da dignidade no esforço e da esperança simples.

A procissão partia da fábrica em direção à Igreja Matriz, atual Catedral de Nossa Senhora do Bom Sucesso. O andor, ornado com flores do campo e fitas coloridas, era sustentado com devoção por aquelas que, ao longo do ano, moldavam com as mãos charutos primorosos e embalavam o fumo que abastecia mercados distantes.

Durante treze dias, a imagem de São José permanecia na Matriz, onde a cidade inteira podia lhe render homenagens. Era um tempo de preparação espiritual que culminava no dia 1º de Maio — Dia do Trabalhador. Nesse período, os cruzalmenses viviam uma verdadeira novena do ofício, com missas cheias, preces murmuradas entre as pausas do cotidiano e uma atmosfera de comunhão popular que unia fé e identidade operária.

No cair da noite do primeiro de maio, após a celebração da primeira novena do mês, São José voltava para casa. A procissão de retorno à Suerdieck era vibrante, marcada por um intenso foguetório que riscava o céu e por um cortejo emocionado de operárias, familiares e devotos. Era como se o santo voltasse ao seu posto de trabalho — ao chão de fábrica onde repousava a alma da cidade laboriosa.

A capela da Suerdieck recebia novamente seu padroeiro, e ali ele permanecia, entre os fardos de folha de fumo, velando por aquelas mãos que, mais do que produzir charutos, sustentavam famílias, erguiam futuros, construíam Cruz das Almas.

Hoje, recordar dessas celebrações, traz em si algo maior do que a simples memória. Há um elo profundo entre o sagrado e o cotidiano, entre o altar e a bancada de trabalho. E São José Operário — que nunca foi um santo distante, mas um companheiro de jornada — segue vivo na lembrança dos que ainda sabem que trabalhar também é uma forma de rezar.

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A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.