AINDA QUE SEJA SÓ NA LEMBRANÇA!

Há águas que curam, outras que lavam. E há águas que guardam lembranças.
A Fonte do Doutor não era apenas um fio d’água que brotava do chão. Era o espelho da própria alma narcisista de Cruz das Almas, batizando os pés descalços e os sorrisos matinais.

Diziam os antigos que quem bebesse da Fonte do Doutor, voltaria.
E voltava mesmo — Se não voltasse o corpo, voltava o coração, puxado pelas lembranças de um tempo em que a cidade cabia inteira num banho frio.

Não conheci a fonte original, quando o médico Dr. Ribeiro dos Santos, nas suas manhãs banhava-se em silêncio. E por isso o nome ficou, como herança sussurrada entre gerações. Sim, o “Doutor” da Fonte é dele, o Ribeiro dos Santos.
Os da geração seguinte, sim, é que conheceram-na quando já de propriedade de outro Doutor, também político e também médico: o Lauro Passos, da mesma Fazenda Bonsucesso, uma imensidão de terra, cheia de pés de laranja Bahia, de mangueiras antigas, jardim de rosas orgulhosas e angélicas que perfumavam até os sonhos.

 Na década de 30, sob o comando de Luiz Eloy Passos, a Fonte foi vestida de novo: caixa d’água robusta, banheiros com portas de dignidade, torneiras como braços estendidos,
bacias de cimento onde se lavavam panos, cismas e pecados leves. Tal qual do jeitinho retratada por Zeca Salomão.

Virou passeio, virou ponto. De manhã cedo, famílias inteiras iam ao ritual do banho.
As meninas, envergonhadas e enlaçadas pela inocência, entravam nos boxes enquanto as mães, como sentinelas da honra, guardavam a porta com olhos de rezadeira.

Nada de maiô. Nada de sair de cueca. Martelo, o zelador, vigiava tudo com seu nome de ferreiro. Tinha um barraco ao lado, onde vendia cachaça. E nem todos que passavam por lá queriam saber só do banho — alguns queriam algo mais, como um trago de coragem ou de esquecimento. Era o caso de Davino, alfaiate de mão cheia.

E os aguadeiros? Capitaneados por Bibiano, carregavam o líquido sagrado em barris nos lombos de burros, subindo ladeira, atravessando ruas e deixando saudade. Água da Fonte era para beber, para cozinhar e para benzer. Para todo o restante, a água de cisterna servia.

Na parte alta, perto da casa grande da fazenda do Doutor, além do jardim, do laranjal e das mangueiras já citados, havia o curral de vacas e o estábulo de cavalos de raça. Até que um dia, por ideia moderna e talvez apressada, ergueram um banheiro de carrapaticida — e ali começou a morrer, contaminado, o manancial da Fonte.

Hoje, a Fonte do Doutor ainda existe… acho; mas não como antes. Foi silenciada pelo descaso e, pelo mato, seu caminho tornou-se inacessível. Mas, entre as frestas da cidade moderna, a memória dela ainda escorre, morna e mansa, nos olhos de quem viveu e nos ouvidos de quem escuta.

Porque quem banhou-se e bebeu da Fonte do Doutor, volta. Nem que seja só na lembrança. E, por vezes, é na lembrança contada que mora a parte mais bonita de viver.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.