UMA AVENTURA ASTRONÔMICA NO CEAT
O ano era 1986, e o mundo parecia fascinado por uma promessa cósmica: a passagem do cometa Halley, que estava de volta, cruzando os céus como fazia a cada 76 anos. Eu, com meus 15 ou 16 anos, cursando o segundo ano de Agropecuária no Colégio Estadual Alberto Torres, o famoso CEAT. Naquele tempo, a curiosidade juvenil se misturava à febre que tomou conta do país. Tudo parecia orbitar ao redor do Halley. Desde goma de mascar, desenhos animados, bandas de música e até crianças foram batizadas com o nome do cometa. Era um tempo em que o universo parecia um pouco mais ao nosso alcance.
No velho CEAT, eu e alguns colegas, não fomos indiferentes a esse fervor astronômico. Inspirados por todo aquele marketing e estimulados talvez (sinceramente, não me lembro) por algum dos professores que nos alimentava de sonhos e ciência, nós, os alunos curiosos, combinamos de nos reunir numa noite especial para observar o tão esperado cometa. Seria algo como uma festa do pijama travestida de “expedição científica”. Houve até uma pequena mobilização de atividade extraclasse para que o evento acontecesse.
E a noite do tão esperado dia chegou. Era 17 de maio, há 39 anos portanto, avisei em casa, peguei minha bicicleta e… partiu CEAT!
O céu estava claro o suficiente para a observação, mesmo que as luzes da cidade já denunciassem a expansão da poluição luminosa. Sentamos nos degraus da escada do Principal, o prédio central do colégio, onde a conversa fluía entre galhofa e curiosidade genuína. Éramos um misto de cientistas amadores e adolescentes sedentos por qualquer oportunidade de transformar o comum em extraordinário.
Passamos as primeiras horas tentando identificar no céu algo que lembrasse o cometa dos livros didáticos, com sua longa cauda luminosa e uma imponência de tirar o fôlego. Mas a verdade foi um balde de água fria. A Terra e o Halley estavam em lados opostos do Sol, e tudo o que conseguimos enxergar, depois de muita insistência e dedos apontados para o infinito, foi um rastro pálido, quase indistinguível de uma nuvem.
“É isso?”, alguém perguntou, com a frustração claramente expressa na voz. Enfim…
Para nós, adolescentes com imaginação borbulhante, aquilo era uma traição astronômica. Onde estava o espetáculo prometido? Onde estava o cometa que parecia explodir em cores e brilho nos cartazes e comerciais? Aquela “poeira no céu” era o que nos restava?
Rimos para disfarçar a decepção; mas, no fundo, acabamos resignados. Talvez não estivéssemos preparados para apreciar as maravilhas do universo. Não tínhamos telescópios nem câmeras sofisticadas, apenas nossos olhos e a ânsia de ver algo grandioso. Enquanto a ciência avançava e a sonda Giotto captava imagens incríveis do Halley de perto, nós ficávamos com nosso pequeno vislumbre, quase simbólico, da sutileza a nós oferecida.
Ainda assim, aquela noite não foi em vão. A experiência ficou registrada em nossas memórias, como tudo que envolve expectativa, amizade e descobertas juvenis, e a promessa de que quando o cometa Halley retornar, em 2061, estaremos, se a sorte assim permitir, nonagenários e juntos novamente na escada do Principal. Quem sabe, dessa vez, a ciência e a tecnologia nos entreguem uma visão mais clara e espetacular.
Mas, para mim, o que já está eternizado é aquele momento, na escadaria do CEAT, junto com os colegas, sob um céu que parecia infinito, olhando para uma promessa distante e descobrindo que o verdadeiro brilho da vida está, muitas das vezes, na aventura de esperar, imaginar e compartilhar…

