MAIS UMA CRÔNICA DE DOMINGO NO ALMANAQUE CRUZALMENSE

No meio dessa semana que passou, como quem tira uma pérola do fundo da gaveta da memória, o poeta imortal Luciano Fraga — a quem carinhosamente chamo de ConFraga, meu caro confrade na Academia Cruzalmense de Letras — publicou uma verdadeira relíquia: uma fotografia antiga de Vicente Celestino em Santo Antônio de Jesus.

Comentei, claro. Primeiro porque uma foto dessas é mais do que simplesmente imagem; é relâmpago na lembrança e acende memórias. Depois, nela havia uma casa cuja arquitetura suscitou a comparação com outras contemporâneas e iguais em Cruz das Almas. E comentei também porque eu sou um dos muitos fãs da voz orgulho do Brasil, o cantor Vicente Celestino interpretando “O Ébrio”, “Porta Aberta” e, principalmente, a belíssima “Mia Gioconda”.

O Confraga então, com sua gentileza habitual, contatou-me agradecendo o comentário. E, mais do que isso, brindou-me com uma memória sua.

Ali pelo final dos anos 60 e meados dos anos 70, um trecho em Cruz das Almas pulsava vida como se fosse o próprio coração da cidade: a Avenida Alberto Passos. Quem viveu sabe — e quem não viveu, devia saber — que ali era muito mais do que uma via de ligação com a Praça Senador Temístocles. Era um palco. Um corredor onde o cotidiano encenava suas cenas com direito a personagens fixos e trilha sonora.

Luciano, filho de seo Fraga e dona Maria – proprietários da Casa dos Couros, havia crescido naquele mesmo trecho localizado entre a antiga pizzaria Status (atual Drogasil) e a esquina que hoje dá no Bradesco. Havia ali duas barbearias (a de Darílio e a de Agapito, que começaram juntos, como sócios, e depois se separaram), dois armazéns (de seo Toninho da Venda e de seo Joel Reis), dois moinhos de café (de Nelinho e de seo Alcino), duas outras lojas (a das Fábricas e a dos Tecidos), dois relojoeiros (Valdeque e seo Gerson), e dois estúdios de fotografia: o de seo Nogueira e o do casal Hermes e dona Lourdes — pais de Hermes Peixoto, outro querido confrade nosso na Academia de Letras.

Bom… parece até que tudo era aos pares naquela época, como se a cidade se equilibrasse em simetrias. Um comércio de cheiros e sons, de vozes e risos, de calçamento de “cabeça-de-nego” que depois virou paralelo e hoje é asfalto, mas que nunca perdeu o trajeto das histórias do dia-a-dia.

E Luciano lembrou-se, especialmente, de um ritual curioso que acontecia semanalmente ali. Mais precisamente, no meio da semana, quando a cidade respirava no ritmo de suas rotinas. Era quando seo Nogueira, fotógrafo de mão cheia e alma lírica, punha para fora da sua loja uma enorme caixa de som. Ligava a radiola e fazia ecoar na rua a potente voz de Vicente Celestino. E não era só a vitrola que cantava. De lá de dentro do estúdio, seo Nogueira acompanhava, voz em peito, como se estivesse num palco iluminado só para ele.

Seo Nogueira tinha método, veja bem. O sujeito que ia tirar foto com ele, na famosa Foto Nogueira, passava por um ritual: luz quente no rosto, suor, talco, mais luz, mais talco. A pose só saía depois de um processo que mais parecia uma cerimônia.

E, como todo artista, seo Nogueira tinha seus momentos de auge. Diz o ConFraga que, quando o homem tomava uma “bebidinha quante”, isto é, com um teor alcoólico um pouco mais elevado, a voz também ganhava altura. E o vibrato de seo Nogueira disputava espaço com as notas do próprio tenor Celestino: “Toooorneeeei-me um ééébrio…”

Mas não era o único som da rua. Um pouco mais adiante, no Bar de Barrão podia-se ouvir Altemar Dutra, Tim Maia, Roberto Carlos e tal. E, curiosamente, não havia duelo. Era como se a Avenida Alberto Passos fosse uma rádio com duas estações tocando ao mesmo tempo — uma de cada lado da rua — e ninguém mudava de sintonia. Cada qual no seu canto, curtindo seu ídolo.

E esta lembrança do ConFraga, com certeza não é só dele. É uma cápsula de memória coletiva. Cada nome, cada loja, cada música ecoando entre os prédios e o céu, compõe uma Cruz das Almas que viveu  — e ainda vive, naqueles que sabem “auscultar” o passado.

É muito bom relembrar, ou saber, que em Cruz das Almas já houve um tempo em que a canção de Vicente Celestino era cantada por um fotógrafo apaixonado, numa avenida onde tudo acontecia aos pares e o tempo tinha cheiro de grãos de café torrando e o pó era moído na hora.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.