Junho chegou! Mas é desde maio que Cruz das Almas começa a vestir seu traje de festa. Tem cheiro de milho cozido sendo vendido na rua, som de ensaio de forró vindo de alguma garagem, bandeirolas tímidas balançando nos fios. É como se a cidade inteira respirasse mais leve, só esperando o sinal pra tomar um licor e dançar um forró.
Bem… exatamente, exatamente quando começa o período de São João em Cruz, a gente não sabe; mas sente! Basta falar e logo vê-se no sorriso das crianças e até nos olhos dos mais velhos, que voltam no tempo e se lembram das noites na Praça depois da missa, das danças das quadrilhas juninas na escola ou do infalível “São-João-passou-por-aí?” de casa em casa e pelas roças, onde o ar tinha cheiro de fumaça de fogos queimados e fogueira queimando. Ah, e o sabor da laranja descascada, do amendoim cozido, do licor de jenipapo…
Tem algo de eterno nesse tempo. Sim, uma tradição que resistiu além do tempo, às crises e às mudanças de geração. São João, em Cruz das Almas, não é só festa — é herança, memória viva, pacto silencioso entre os que vieram antes e os que ainda confraternizam-se até com desconhecidos (que passam a ser recém-conhecidos) na beira da fogueira. Não importa quantas modernidades se imponham, a tradição insiste em florescer com a força de uma flor de cacto no sertão: bela, teimosa, cheia de vida.
E neste cenário em que tudo parece já roteirizado, a Alvorada da Rua Rio Branco, como um arauto, é sempre a primeira a anunciar: é ela quem sempre dá o grito de largada. As barracas surgem feito flores no chão da rua enladeirada. No palco armado, bandas de música com artistas mais ou menos famosos dão o acorde, avisando que o mês do santo chegou.
E se, ali na Estrada de Ferro, os primeiros rojões cortam o céu anunciando a alvorada, lá na Rua da Estação espadas já riscam o chão — sim, temos espadas!
Para além do encantamento, um conflito persiste ano após ano: a velha guerra de espadas. Não é mais como antes, quando as ruas se enchiam de fogo riscando o céu, e os meninos sonhavam em virar mestres espadeiros. Desde 2011, a tradição foi criminalizada. Mas ela resiste — às escondidas, nas madrugadas. É um duelo silencioso entre a paixão e a força da lei. Espadas versus polícia. Cultura versus proibição. Desta batalha, ninguém sai ileso.
Mas, mesmo assim, a cidade segue em festa. O comércio se agita, as vitrines ganham chapéus de palha, vestidos de chita e camisas de xadrez; o trânsito fica mais lento, mas ninguém reclama. Os olhos correm para o céu, buscando uma bandeirola, e o coração vai junto, no embalo da saudade.
Dentro de poucos dias, tudo se transforma. A cidade vira um grande “arraiá”. As casas já enfeitadas, os forrós tomam conta do lugar e a alma do povo parece acordar de um sono leve, embalada pela mesma chama que, dizem os católicos, começou lá nas colinas da Judéia, quando Santa Isabel acendeu a primeira fogueira para anunciar o nascimento de João Batista, o primo de Jesus. Já os protestantes e os historicistas têm versões diferentes para esta mesma história: uns dizem que equivocadamente festeja-se a degola de João Batista, outros dizem tratar-se de uma festa de origem pagã… enfim!
Em Cruz das Almas, o São João é fé, memória e resistência. E quando, ao longe, ouve-se o primeiro acorde de espada sendo testada na madrugada escura, a gente sabe: o mês do santo chegou. E com ele, mais uma chance de ser feliz.
Ah… não podemos deixar de falar da Rua da Estação. É ali que, além da tradição, da sua importância histórica como porta de entrada na cidade, de ser o berço da cultura popular junina, do aconchego festivo dos moradores e da grande reserva de memória afetiva que ali há, é onde atualmente o São João universitário ganha corpo, cor e coragem. O Circuito Murilo Sena (o trecho também, ou mais, conhecido como passarela do álcool) se transforma em vitrine da juventude: música alta, copos coloridos, encontros inesperados e aquele clima elétrico que só a mistura de paredão, forró e cerveja consegue criar. Tem quem critique, claro. Mas tem também quem diga que ali pulsa o coração moderno do São João cruzalmense.

