E OS TEMPOS ÁUREOS DA ELEGÂNCIA NA MODA CRUZALMENSE

Sempre que chega esta época de festas, quando as vitrines se enchem de cores juninas e os manequins são vestidos com promessas de sofisticação, eu me pego lembrando da liquidação da Sacy. Era o grande evento fashion do ano em Cruz das Almas. Havia uma certa magia em correr para lá na esperança de encontrar, com desconto, entre araras e prateleiras, uma calça Pierre Cardin encalhada ou uma jaqueta jeans USTOP com cara de importada.

Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo — e como houve! — em que vestir-se para as festas era arte. Não se comprava roupa pronta, penduradas aos montes em cabides ou embaladas em sacolas padronizadas. Não. A moda era feita à mão, no compasso dos alfaiates e das costureiras, com linhas puxadas a carinho e alfinetes de precisão. Cada vestido era um projeto de orgulho; cada paletó, uma construção civil de tecido e elegância.

O cruzalmense que se prezasse, ao precisar de roupa nova, não corria para a loja, e sim para costureiras como D. Lourdes de Sêo Hermes Peixoto, D. Luisita da Rua do Jenipapo ou D. Dalva de Viana. Ou para alfaiates como Davino, Coringa, Mário, Jorge, Paulo entre outros. E as revistas eram os oráculos da moda. As mais “antenadas” traziam recortes de revistas estrangeiras, sonhando com vestidos que dançavam em passarelas de Paris e telas de Hollywood; outras contentavam-se com os moldes da revista Manequim. Mas os modelos ganhavam forma aqui mesmo, no ateliê de costura de alguma rua cruzalmense, sob os olhos atentos e mãos hábeis que mediam e riscavam com o giz da sabedoria.

Foi então que, com a chegada das roupas prontas de marca, a chamada pret-a-porter, a moda na cidade conheceu um divisor de águas: a Sacy Modas, do icônico Zé de Conta — também conhecido como José Caetano Silveira. A sua loja era mais que um ponto de venda; era um palco. Um desfile informal de tendências, onde se encontrava de tudo, das refinadas etiquetas como calças Pierre Cardin, jaquetas USTOP e lingeries Valisére até as populares camisetas de malha da Sulfabril e da Hering.

Naqueles tempos, a sociedade cruzalmense parecia dividir-se entre duas castas: os que compravam lá em cima, na boutique; e os que, na parte de baixo da loja, reviravam o “balaio” em busca de promoção. As liquidações faziam tremendo sucesso.

As roupas prontas, então, foram tornando-se tendência, e graças a Sacy Modas — elegante, moderna, diferente de tudo que havia na cidade em termos de loja de moda. À frente, o empresário José Caetano, que tinha tino para o comércio e “olhar afiado para o que brilhava nas vitrines do mundo”, dizia ele.

E eis que vieram os anos 80, 90 e os tempos da rebeldia fashion. As ruas da cidade se encheram de bermudas de tactel, camisetas largas, tênis de skatista. Era o reinado do streetwear e do surfwear. A Jet-Set Modas de Péricles Sitônio e a irreverente TranZando Moda de Alfredo, marcaram época. O Colégio Acadêmico virava passarela, e ostentar uma marca bacana valia mais do que fazer o dever de casa.

E quem nunca presenciou a crueldade juvenil dos colegiais quando alguém era apontado no meio do recreio com o veredito cruel:

“Ih, olha lá… tá usando roupa de Nem Caçola!”

Ríamos da “piada”. Mas, convenhamos: doía para a vítima, pois quase sempre, era verdade.

Não dá pra falar de moda em Cruz das Almas sem mencionar as referências lojistas: como esquecer de Célia da Cinderela, com suas sandálias de sonho? Ou da refinada D. Zélia Cardoso? Do charme moderno de Lu Modas, das novidades exclusivas que Gilda Confecções trazia de suas viagens ou da multifuncionalidade do Armarinho Sara, onde se comprava material escolar, aviamentos e saia jeans na mesma passada?

Hoje, compra-se moda com um clique, os looks chegam pelo correio e a liquidação virou notificação no celular. Mas, sinceramente, nenhum aplicativo supera a emoção de encontrar uma calça Calvin Klein no balaio de liquidação da Sacy, sentir o coração bater forte e sair desfilando pelas ruas de Cruz como quem estivesse passeando em Milão.

O tempo passou, é verdade, mas confesso que ainda sinto saudade daquele tempo em que esperava ouvir o carro de som de Pedro Itatiaia anunciando:

“Começou a liquidação da Sacy!”

Aí sim, eu sabia que a festa, de fato, estava começando.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.