QUANDO A FESTA ERA FEITA PELO POVO!

Contam os mais velhos — e a gente acredita, porque memória coletiva é coisa séria — que lá pelos anos 50 e até os anos 70, quando o tempo caminhava mais lentamente em Cruz das Almas (eu sempre digo isso, né?!), a festa “joanina”, ou seja, de fato em alusão a São João, era outra coisa. Ou melhor: era festa também, mas diferentemente desta que a gente vê hoje, não era toda cercada, etiquetada e com senha de acesso. Naquele tempo, não se falava em circuito, arena ou camarote. Aliás, nem se sabia o que isso era. O São João acontecia no arraial de verdade mesmo, de casa em casa e se fazia nas ruas.

Era a rua que se enfeitava, se iluminava e ganhava vida. Não existia essa de “evento patrocinado”. A única marca estampada era o suor do povo. A verba vinha da boa vontade, da alegria em comum. Não era festa de prefeitura, nem de político querendo palanque. Era festa do povo, feita com as próprias mãos.

Cada um tinha seu papel. As mulheres, sabidas e experientes, traziam o sabor da festa: a que fazia bolo de aipim, a das cocadas, a das balas de jenipapo. Sempre tinha uma que era craque na pamonha e na canjica. E nunca, nunca mesmo, faltavam milho assado, amendoim cozido e o queijo-do-reino comprado com o dinheiro do caixa.

Os homens assumiam a pirotecnia: foguetes, busca-pés, coriscos, espadas. Nada muito profissional, mas sempre emocionante — às vezes até demais. E também eram eles que cuidavam das bebidas, fortes e quentes como convinha à ocasião: cachaça, conhaque e, principalmente, o licor. Pouca variedade de sabor, é verdade, mas com personalidade: tamarindo, jenipapo e maracujá.

Às crianças, eram reservados os traques, os estalinhos, as estrelinhas, as cobrinhas, as bombinhas, as chuvinhas e o terrível cordão cheiroso.

Aos jovens, com energia sobrando e sede de festa, sobravam as bandeirolas, a serem penduradas uma a uma, formando um céu de papel colorido sobre a rua. Também ajeitavam a fogueira com uma paciência que ninguém diria que tinham. E ali, entre uma coisa e outra, aprendiam que a alegria coletiva dá mais gosto que qualquer diversão solitária.

A música vinha de onde dava. Às vezes era a vitrola de um vizinho moderno, exibindo seus LPs de forró. Noutras, era alguém que sabia tocar uma sanfona ou bater um pandeiro com graça. Mas se desse muita sorte mesmo, a festa teria Jotinha, o sanfoneiro JPS, que animava os blocos de rua. E quando começava, não importava se o som era limpo ou chiado — o que importava era “rastar” o pé no chão, balançar o corpo na dança e gritar de casa em casa, como diria Sêo Luiz, o prefixo cristão: “São João passou por aí?”

Mas é verdade também que, mesmo naquela época, existiam os bailes mais arrumados. O Cruz das Almas Clube já brilhava com suas festas quase sempre promovidas pelas famílias mais abastadas e que depois viravam notas da high society no Jornal Nossa Terra ou tinham a fotografia no Jornal do Planalto, a depender da época.

Nestas festas, participavam as normalistas do Colégio Alberto Torres, que sonhavam formar par na quadrilha com os rapazes da Escola de Agronomia. Tinha conjunto musical arrumado também, tudo no tom certo: sanfona, zabumba e triângulo. Muitos recordam-se de Fulgar na zabumba, Silvestre Caldas na sanfona e Gilberto no triângulo. Era bonito de ver a Equipe Capivari.

Mas, ainda assim, mesmo nesses salões, o espírito era o mesmo — porque era festa feita por nós, os cruzalmenses.

Hoje, a gente olha em volta e vê luzes, palcos, camarotes, segurança privada, filas, preços altos, patrocínios em todo canto… A festa cresceu, sem dúvida. Mas às vezes me pergunto: Cresceu pra onde? Cresceu pra quem?

Talvez por isso tanta gente, quando fala do São João de antigamente, suspire com saudade. Porque naquela Cruz das Almas sem pressa, sem Instagram e sem camarotes, a festa era encontro, era cuidado, era partilha. Era mais “joanina” e bem menos “junina”, entende?

Era tudo muito “massa”! Era muito mais bonita!

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.