E OS CRAQUES DA BOLA
Estive a ler a coluna Desportiva escrita por Zeca Ferreira (Dois Véi), que publicava no semanário Nossa Terra, nos meados da década de 1950. E, eis que pego-me a pensar como deveria ser diferente “viver o futebol” naquela época em Cruz das Almas. Resolvi pesquisar…
Lá na Cruz das Almas de 1950, 1960 e início dos anos 70, o futebol não era apenas um jogo. Era ritual, era festa, era respiro de uma cidade que, aos domingos, vestia sua melhor camisa e ia inteira se encontrar no campo. O futebol cruzalmense, naquela época, era o que hoje chamamos de patrimônio imaterial, só que ninguém precisava de decreto pra saber disso. Sentia-se.
Parece que tudo começava cedo, bem antes do apito inicial. Os torcedores, carregados de emoção, rumavam ao campo do Ginásio Alberto Torres, um campo gramado que por muito tempo foi o templo sagrado das jogadas de efeito e das defesas cinematográficas.
Tempos depois, a bola passou a rolar no campo do Estádio Alberto Passos, recém-inaugurado ali na Baixinha da Vitória pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, com arquibancada que vibrava com os gritos da multidão. Ali se concretizou a paixão pelo futebol como espetáculo comunitário, onde as famílias se reuniam e os amigos se encontravam.
Na arquibancada, não havia espaço para violência. Havia emoção, discussões acaloradas, mas tudo terminava no abraço ou no grito de “até domingo que vem!”. Era um tempo em que torcer significava celebrar — ou sofrer — junto. A garotada corria pra lá e pra cá entre os adultos; no entorno vendia-se picolé de coco, amendoim torrado e rolete de cana. E a alegria era compartilhada.
E não pense que era só para ver quem ganhava. Era para ver jogar. Para admirar a classe de Álvaro, o talento de Walter, os passes precisos de Rocha, a valentia de Leão, as arrancadas de Fonseca, os gols de Batuta, o domínio de Tampão, a visão de jogo de Teixeirinha, os chutes certeiros de Ivo, a pegada de Everaldo, a ginga de Turuna e as travessuras do eterno Futrica. Segundo a coluna de Zeca Dois Véi, era uma constelação inteira vestida de chuteiras e amor pela bola.
As partidas tinham seus clássicos, seus dramas e suas alegrias. Os clubes da cidade — Artistas, Cruzeiro, Monte Castelo, Estudantes, Aiveca, Arsenal, Seabra, Vitória, Bahia, Vasco e o tradicionalíssimo Ipanema — lutavam por vitórias no Campeonato Municipal, promovido pela esforçada e, às vezes, atrapalhada Liga Cruzalmense de Desportos Terrestres. Era uma organização que, se não tinha dinheiro, sobrava vontade de fazer o futebol acontecer.
Mas o melhor estaria por vir depois do jogo…
Quando o juiz apitava o fim da peleja, e o time vencedor tinha garantido os três pontos e o orgulho do bairro que representava. Começava o cortejo. Sim, porque a vitória não se encerrava no campo do Ginásio ou do Estádio: ela era levada em desfile pelas ruas da cidade. Jogadores à frente, com os uniformes suados e o peito inflado; atrás, o séquito de torcedores, ruidosos e felizes, entoando hinos improvisados e marchando ao som de uma filarmônica, de uma charanga ou da batucada de uma escola de samba.
Geralmente, os lugares mais animados nesse ritual eram a Rua da Vitória, o Itapicuru, a Rua J. J. Seabra e a sempre animada Rua das Poções. Nessas, os moradores realmente celebravam o feito heroico. Era como se, por um instante, aquela conquista dominical ressignificasse toda a semana de trabalho e dureza.
E assim, eternizados em fotografias e lembrados por seus feitos, estão eles, os heróis do povo: Lula de Irineu, Luciano Baronesa, Norildo, Tonhe de Duca, Zé Jorge, Renério, Leonel Bambá, Coringa, Tote de Bião, Zeca da Breda, Zé Eletricista, Pernambuco, Zito, Louro de Tile, Antônio Galdino, Zequinha, Sidenizio, Aníbal, Boquinha, Reizinho, Farromba, Temi e tantos outros… Cada um com sua história, seus lances inesquecíveis, suas broncas com o juiz e seus momentos de glória.
Hoje, apesar do imponente Barbosão que abriga os jogos, os domingos desportivos parecem dormidos no tempo, como uma bola esquecida no quintal. Mas basta alguém puxar uma lembrança — “Você lembra daquela vez entre Ipanema e Cruzeiro?” — e pronto: a memória se acende de novo. Porque essas memórias são assim como o bom futebol: não morrem jamais. Apenas esperam o apito para iniciar ou recomeçar o jogo…
(Uma homenagem aos craques e torcedores que fizeram do futebol cruzalmense uma verdadeira celebração popular e que inspiraram a presente crônica.)

