O QUE PEDRO AMÉRICO, ISAAC NEWTON E CRUZ DAS ALMAS TÊM EM COMUM?

Neste São João, como tem sido vezeiro nos últimos anos, recebi a visita de um grupo de amigos oriundos de Salvador e de Feira de Santana que vieram passar os festejos juninos aqui “no interior”, como eles dizem. Pois bem… conversávamos sobre uns vídeos publicados no TikTok, criados pela I.A. (a tal da Inteligência  Artificial) e como eram incrivelmente “reais”. O ponto levantado em questão foi justamente o notório perigo para a sociedade que é o uso desta nova tecnologia em fazer as pessoas acreditarem nas imagens por ela criadas.

Daí, pus-me a pensar…

Estes “novos” perigos da Inteligência Artificial, que muitos alertam dizendo que “a I.A. está criando realidades alternativas” ou “não sabemos mais distinguir o que é real ou não”… Convenhamos: esse fenômeno de forjar imagens que tomamos por verdade não nasceu agora com os algoritmos. Na realidade, vivemos com isso há tempos. A diferença é que agora os autores são digitais — antes, eram humanos mesmo.

Por exemplo, o célebre quadro de Pedro Américo: “Independência ou Morte!”, pintado décadas após o fato, por encomenda da monarquia brasileira, o quadro jamais teve a pretensão de ser um registro histórico fiel. Mas ainda hoje é ele que povoa os livros didáticos e o imaginário coletivo, com Dom Pedro I empunhando a espada montado num imponente cavalo à beira do riacho do Ipiranga. A cena é bela, heroica… e simbólica. Mas não é real. Pedro Américo nos deu uma versão romantizada e gloriosa, moldada para servir a um ideal de nação e de poder.

Assim também foi com a famosa maçã de Isaac Newton. Quem nunca ouviu que o físico descobriu a gravidade quando uma maçã lhe caiu na cabeça? É uma história simples, elegante, perfeita para contar a crianças e adultos. Mas há fortes indícios de que isso jamais aconteceu literalmente. Foi um recurso narrativo usado por seu biógrafo, meio século depois, para ilustrar o poder da observação. Uma metáfora? Sim. Uma fraude? Não. Apenas uma forma poética de contar um avanço científico complexo demais para caber em frases curtas.

E o que dizer então do nosso próprio mito fundador? O nome Cruz das Almas não nasceu de um cruzeiro à beira do caminho, onde tropeiros vindos do sertão paravam para rezar pelas almas. Essa narrativa tocante, que tantos cruzalmenses conhecem de cor, foi criada, sob encomenda, pelo escritor Mário Pinto da Cunha na década de 50. Mesmo sem registro anterior que comprove tal tradição, a história foi sendo repetida, abraçada, amada, retratada — e até acabou virando “oficial”.

Estou dizendo que tais histórias são mentiras? Talvez não. Prefiro pensar que são construções simbólicas, metafóricas, formas de transmitir valores, de dar sentido aos acontecimentos e até criar uma identidade cultural.

O que acontece hoje, é que com a I.A., o processo multiplicou-se. Uma imagem gerada por I.A. é imediatamente distribuída através das milhares de telinhas das redes sociais e pode  emocionar, fazer rir, ou até mesmo ensinar. Pode também nos enganar — é verdade!

Mas, dizer que é uma novidade? Não… A diferença é que agora temos novos autores, novos pincéis, novas maçãs. O desafio continua sendo o mesmo: saber olhar com espírito crítico, com curiosidade histórica, com amor pela verdade.

Mesmo porque a verdade nem sempre está na história que se conta dela.  Ora, pois!

Viva a arte de inventar! – mas tenhamos cuidado com a inteligência… seja ela humana ou artificial!

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.