Ah, que saudade daquelas jaqueiras!

Poderia ser apenas mais um dia de trabalho qualquer, mas esta sexta-feira carregava um ar diferente, meio saudosista, desses que só quem tem memória afetiva entende. Entrei pelo portão do CETEP — o nosso eterno CEAT — e fui tomado pelo olhar silencioso das árvores que ainda existem naquele lugar tão cheio de histórias.

Elas lá, as árvores. Estavam firmes, pacientes, como que esperando para me receber. E, de certa forma, me esperavam mesmo. Porque há lugares que não esquecem da gente. Aquelas árvores são testemunhas vivas do meu tempo de estudante: de tantas manhãs sonolentas, de risos altos no intervalo, de medos antes das provas, de amizades que nasceram sob suas sombras.

Olhei ao redor, tentando encontrar as jaqueiras. Cadê elas? Sumiram. Grandes, imponentes, eram rainhas daquele espaço. Não estavam mais. Faltavam como faltam os amigos que a vida levou para longe, os professores que já se aposentaram, as conversas que se dissolveram no tempo.

As jaqueiras faziam mais do que dar fruto — e como davam! — eram nosso refúgio. Era ali que a gente se encontrava para dividir o lanche, os segredos, os sonhos, as tristezas. Era debaixo delas que, por vezes, esquecíamos que estávamos num colégio e sentíamos que o mundo era só aquele pedacinho de chão. Tantas vezes aquelas sombras foram mais educativas que muitas aulas…

Lembro-me que, durante este meu tempo, houve mudanças na gestão do colégio: desde a diretora Nanci Pires Matos Maturino, com sua firmeza afetuosa, depois veio Manoelito Roque Sá, com aquele jeito tranquilo de conduzir o barco e teve Antônio Batista também. Mas as árvores, essas não mudavam. Permaneciam, como se fossem parte do corpo do colégio, raízes que seguravam os ventos do tempo.

O velho cajueiro, por exemplo, continua lá. Desde o tempo de Dr. Clodoaldo, dizem; plantado, salvo engano, pelo Prof. Candinho. O velho e sábio cajueiro ainda vive. As mangueiras, acho que são novas… não me lembro delas no meu tempo de antigamente. Ah… mas as jaqueiras! Quanta saudade!

Nesta sexta-feira vi o quanto fazem falta as jaqueiras. Faltam para os olhos, para a alma, para a formação dos meninos e meninas que ali estudam agora. Cortaram mais do que madeira; cortaram a chance de um vínculo afetivo com a natureza, de um aprendizado que não está nos livros. A educação ambiental começava ali, no toque da folha, no observar do fruto, no recolher da semente.

Sigo a caminhar em direção ao Principal. Um pouco mais calado, um pouco mais cheio. O CEAT continua vivo, com suas árvores resistentes e com outras tantas ausentes. E eu continuo aqui, carregando nas minhas mal traçadas linhas uma memória cheia de troncos, galhos, folhas e raízes, de sonhos plantados no solo fértil de uma escola pública que ensinou mais do que está no currículo: ensinou a importância de viver em comunidade, a respeitar a natureza e de se lembrar das origens.

Tomara que, um dia, alguém plante novas jaqueiras naquele lugar. Só para que os meninos e meninas de hoje também tenham, como eu tive, onde se refugiar — ou se esconder do mundo!

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.