TALVEZ UMA RELAÇÃO HISTÓRICA COM CRUZ DAS ALMAS
Nos arredores de nossa cidade, existe uma localidade que pertence ao município de Muritiba, mas dada a proximidade com Cruz das Almas, muitos de seus moradores dirigem-se até aqui para resolver questões comerciais, bancárias, escolares, jurídicas e até têm empregos aqui. Assim como, é bem comum os cruzalmenses frequentarem a sua já famosa feira livre aos domingos. Trata-se de São José do Itaporã.
Há muito tempo ouvi dizer que… (sim, um péssimo preâmbulo para trazer uma informação de cunho histórico… rsrs! Mas não tenho nenhum registro documental). Enfim…
Ouvi dizer que que o povoado de São José do Itaporã teria nascido da resistência de povos originários que já viviam nestes lugares colonizados pelos portugueses chegados aqui no Recôncavo e, segundo conta a oralidade, aqueles indígenas remanescentes, perseguidos desde o início da colonização, teriam se unido a negros africanos que fugiam da escravidão dos senhores de engenhos ou que escapavam dos capitães do mato de Cruz das Almas, de Muritiba e arredores, para formarem uma comunidade livre na localidade onde hoje é conhecida como São José do Itaporã. Ali, entre vales, morros e matas de difícil acesso, encontraram um refúgio e viviam da terra, cultivando mandioca e fumo de qualidade admirável, e da caça, em harmonia com o ambiente e segundo os saberes ancestrais que cada grupo trazia consigo.
O nome “Itaporã”, aliás, é de origem tupi-guarani, que significa “pedra bonita”; revela aí a presença marcante da natureza e o olhar indígena sobre a geografia do lugar. E não é difícil, para quem já percorreu as estradas sinuosas até lá, entender o porquê. O chão de Itaporã carrega uma beleza discreta, robusta, que parece esconder mais do que mostra. É como se as pedras do seu nome ainda guardassem os segredos de quem ali plantou liberdade.
Como eu disse, não há registros oficiais que confirmem esta origem, mas nem toda história precisa de certidão para existir. Em tempos em que a memória dos oprimidos é tantas vezes silenciada, reconhecer as possibilidades dessa narrativa é um gesto de respeito à ancestralidade e à diversidade de experiências que moldaram o Recôncavo Baiano. Itaporã talvez seja mais do que um vilarejo pitoresco: talvez seja símbolo de uma história subterrânea de resistência, silêncio e força.
Que o Almanaque Cruzalmense se faça também lugar de escuta para essas vozes escondidas entre tantas outras pedras bonitas.

