NOSSA CRÔNICA DESTE DOMINGO

Acordei hoje sem texto, sem tema, sem nem mesmo com vontade de sair da cama. É domingo, afinal! O dia em que tudo é mais devagar, como quem sabe que ainda é possível adiar o corre-corre por mais algumas horas. Mas aí, no silêncio ainda sonolento do meu quarto, me veio a lembrança: Ontem foi uma noite memorável! E então, como quem encontra um bilhete esquecido no bolso, achei a crônica de hoje.

Três acontecimentos em uma só noite. Três celebrações daquilo que nos torna mais humanos: a arte, a palavra e o encontro.

A Casa da Cultura Galeno D’Avelírio completa 38 anos. Trinta e oito! Resistência pura. Nosso refúgio de artistas e apreciadores. Espaço onde já se ouviu de um tudo: poesia em versos declamados, piano, violino, violão, guitarra, bateria, batuques, teatro, pick-ups, cinema e mil ideias. E ontem, ela se encheu de vozes e abraços, como quem sabe que estar ali é mais que presença — é compromisso com a memória de uma cidade.

Rever o primeiro presidente da Casa, Nelson Magalhães Filho, foi como folhear o livro de História. Ali também estavam Graça Sena, Acidailza Mascarenhas, Luciana Lordelo, Cristiane “Kitty” Oliveira e o sempre atual Hermes Peixoto. Cada qual, ao seu modo, com sua marca deixada  na Galeria de Presidentes da Casa.

E foi justamente Hermes Peixoto, o segundo grande evento da noite, que lançou seu novo livro: Conversar com Deus. Que título bonito, hein? Daqueles que a gente lê e sente um arrepio na pele, como se alguém sussurrasse uma prece no nosso ouvido. E que prestígio! Muita gente saiu de casa — e olha que é difícil um cruzalmense sair de casa quando está fazendo aquele friozinho típico de Cruz das Almas, que parece ter vindo só pra nos lembrar que existe inverno. Mas lá estavam todos: confrades e confreiras da ACL e da ALR, amigos, leitores. Um público que queria, mais do que tudo, homenagear um escritor que conversa com Deus, mas nunca deixou de conversar com os irmãos, todo o povo.

E como se não bastasse, ainda teve vernissage! Nelson Magalhães Filho nos brindou com sua exposição Pinturas Recentes. E quem acha que ele já pintou tudo que tinha a pintar, se engana. Nelson apareceu com uma série de flores, vivas, coloridíssimas, que pareciam ter sido colhidas num jardim secreto. O salão se iluminou. E artistas queridos também estavam lá, como ZéCarlos Sampaio, o cineasta Tao Tourinho, e tantos outros que compõem essa constelação cultural.

Na acolhida musical, a voz de Zinaldo Velame nos puxou pela memória. Que prazer ouvi-lo novamente! E, claro, a noite só poderia estar completa com o “bar da Kitty” cheio, o público dançando ao som contagiante de Ras Elias e da Banda Flexada. Uma alegria que parecia abraçar a Casa por inteiro.

Muito bom ver lá gente importante como a Profa. Aldevane, diretora do nosso eterno CEAT, César Ecológico do Copioba, o Prof. Luciano Borba da Lira Guarany…

E sabe, agora escrevendo isso aqui, eu percebo: a Casa da Cultura está viva. Vivíssima! Como há 38 anos, quando começou sua história linda. E que bom que a gente ainda se emociona. Que bom que ainda saímos de casa para ver quadros, ler poemas, ouvir músicas, reencontrar amigos.

A crônica de hoje nasceu assim: no compasso da memória recente, no eco das risadas de ontem, nas cores das flores que Nelson pintou, na voz de Zinaldo, no calor do abraço cruzalmense.

É domingo. A Casa da Cultura está de pé. E eu já tenho tema. Vou escrever a crônica…

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.