Dia desses, recebi a mensagem de uma querida amiga escritora, socióloga, agente cultural, militante de esquerda, inteligentíssima, forjada na academia, mas uma livre pensadora… enfim, dessas figuras raras que a gente guarda como tesouro. Na mensagem, ela me perguntava se eu sabia da existência de uma sala chamada Plínio Salgado na Biblioteca Municipal Carmelito Barbosa Alves. E mais: se a sala ainda funcionava e se a tal homenagem persistia.
Sim, eu sabia. Escrevi sobre isso lá em 2020, numa postagem no próprio Almanaque. E, que eu saiba, nunca cogitaram abolir a homenagem.
Foi quando ela, sem rodeios, disparou:
— Acho que está na hora de cogitar a retirada desse nome. É inadmissível, nos dias atuais, manter uma homenagem ao fascismo numa biblioteca.
E concluiu, quase como quem dividisse um peso:
— Há tempos eu queria comentar isso com você.
Naquele instante, me dei conta de algo que sempre ronda, mas nem sempre me alcança: as pessoas esperam mais de mim. E olha que não estou falando de qualquer pessoa; por isso fiz questão de apresentar o currículo da minha amiga lá no início. O Almanaque Cruzalmense, entre tropeços e acertos, tem se tornado uma fonte confiável de pesquisa. Muitos já perceberam que desfazer alguns mitos do passado não é apagar a história, mas iluminar o presente e o futuro da cidade.
Pois bem. Quem foi Plínio Salgado?
Plínio foi escritor, jornalista, teólogo e político conservador. Fundou e liderou a Ação Integralista Brasileira, movimento nacionalista católico de extrema-direita inspirado no fascismo italiano. Uniformes verdes, saudação de braço estendido, culto à pátria, intolerância e autoritarismo eram marcas do integralismo.
E por que seu nome está numa sala da nossa biblioteca? Porque o prefeito da época, Carmelito Barbosa Alves, era simpatizante da doutrina integralista. Ao construir a biblioteca, decidiu batizar suas salas com nomes de personalidades ligadas à cultura, à educação e à política; entre elas, Plínio Salgado.
E aqui entramos na encruzilhada: manter ou não homenagens a figuras ligadas ao fascismo?
De um lado, há quem defenda a retirada, como forma de repúdio a uma ideologia totalitária que perseguiu, violentou e matou. Homenagear fascistas é perpetuar uma sombra que insiste em se alongar. Renomear a sala seria ressignificar o espaço, dando voz às vítimas, aos resistentes, aos esquecidos pela história oficial.
De outro, há quem tema o revisionismo histórico. Trocar nomes, dizem, é apagar memórias. Mas talvez não seja bem assim: o que se apaga não é a história, e sim o pedestal que insiste em sustentar aqueles que nunca mereceram ser homenageados.
Aliás, esse é um debate que atravessa fronteiras. A Alemanha, por exemplo, proibiu monumentos a nazistas. Outras cidades pelo mundo vêm removendo estátuas e placas de ditadores, escravocratas, racistas. No Brasil, ainda estamos aprendendo a lidar com nossos fantasmas; e eles não são poucos.
No fim das contas, a pergunta que ecoa é simples e profunda: quem queremos celebrar em nossos espaços públicos? Porque celebrar é diferente de lembrar. Lembrar é dever histórico; celebrar é escolha pessoal e política.
E talvez esteja na hora do Poder Público de Cruz das Almas escolher melhor os nomes que estampam placas de bronze nos logradouros da cidade. A escolha é nossa. E cada nome possível deve carregar a chance de transformar o monumento num espaço de memória viva, onde a homenagem se volte não para sombrias ideologias partidárias ou como forma de “agradecer os votos recebidos”, mas para aqueles que, de fato, ensinaram e inspiraram.
E é nesse ponto que a nossa conversa aqui termina; mas, espero, que a reflexão esteja apenas começando.
Ao Poder Legislativo Municipal, fica aí a dica… de graça!


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