FIGURA ILUSTRE DE CRUZ DAS ALMAS
A inspiração para a crônica de hoje veio ao pensar que existem apelidos ou mesmo nomes, que a gente não escolhe. Eles chegam, colam e atravessam os anos como se fossem parte do próprio destino. Assim aconteceu com o seo João Bonança, figura ilustre de Cruz das Almas. Foi gerente de armazém de secos e molhados, tornou-se comerciante, chegou a ser vereador e hoje, quase centenário, ainda é conhecido pelo apelido que ganhou na juventude, lá na efervescência dos anos 50, em uma sorveteria da Praça Senador Temístocles cheia de vida e movimento. Vale destacar que, pelo menos os da minha geração (anos 80, 90) em Cruz das Almas, com certeza lembram de seo João Bonança pelo fato dele ter sido o dono da banca de jornais e revistas que ficava bem ali na praça. Bem… se não conhece, pelo menos já ouviu falar.
Mas, então, sobre o seu nome…
Certa vez no Paço Municipal, quando na ocasião seo João havia sido homenageado pelo Prefeito Orlandinho na campanha “O Melhor de Cruz das Almas é o seu Povo”, contou-me ele próprio, com aquele sorriso de quem carrega uma boa história, que tudo havia começado na Sorveteria Americana, ponto elegante da cidade, onde ele trabalhava como garçom. Antes dele, outro funcionário servia as mesas, mas servia mal: demorava com os pedidos, soltava uns gracejos e deixava as senhoras aflitas e resmungonas. Aquele garçom era como uma pequena tempestade que bagunçava o ambiente, diziam elas.
Foi aí que entrou o jovem João, ainda sem Bonança, apenas João mesmo, magro e disposto, com aquele jeito organizado e uma bandeja na mão. Em pouco tempo, virou a alegria das clientes: lembrava pedidos, sorria, trazia o que pediam sem erro e ainda tinha palavra mansa. As senhoras, aliviadas, suspiravam:
— Ah, agora sim! Foi-se a tempestade, chegou a bonança!
E assim, entre bolas de sorvete e milk-shakes, nasceu o apelido que o acompanharia pela vida inteira. João deixou de ser apenas João e se tornou João Bonança, o nome que lhe deu uma identidade afetuosa, celebrada na boca dos amigos e respeitada no comércio e na política local.
Hoje, ao se aproximar dos cem anos, bem capaz que ele nem precise contar a origem da sua alcunha; talvez a cidade inteira já saiba. Mas para mim, ao ouvir essa narrativa da sua própria boca, o que percebi é que era mais do que umas das curiosas anedotas que seo João Bonança gosta de contar sempre que me encontra: esta é a memória de um tempo em que uma marca nasceu de um gesto simples: atender bem, oferecer cuidado e trazer paz marcam para sempre.
Enfim, a crônica de hoje é sobre isto! Certos nomes não são apenas nomes, são histórias vivas que a cidade conta por meio daqueles que atravessam o tempo com dignidade. E seo João Bonança é uma dessas histórias que comprovam de que o melhor de Cruz das Almas é o seu povo!



