DOIDAS? MALUCAS? GENTE!

Cruz das Almas sempre teve seus personagens folclóricos, figuras que perambulavam pelas ruas e se tornavam parte inseparável do cotidiano. Eram conhecidos de todos, temidos por alguns, amados por outros, mas jamais ignorados.

Tinha Bitela, Ingá Galinha e muitos outros lembrados pelas tiradas repentinas que divertiam a molecada.

Niceto, por exemplo, merece um parágrafo à parte. Quem se atrevesse a fazer-lhe a seguinte pergunta intrigante: “Pra que Niceto quer mão fina?” –  certamente ouviria a resposta que era sempre uma tirada, sem pé nem cabeça, geralmente impublicável, mas repetida com gosto por quem queria provocar risos na roda de amigos.

Havia também uma velha senhora que chamavam de Limão. A criançada já ficava esperando ela aparecer e quando de sua passagem pela rua, cada uma gritava um ingrediente da limonada:

– Água! Açúcar! Limão!

Não se sabe o porquê, mas isso a deixava furiosa, ao que ela respondia:

– Mustura, fila da p…!

Já outra, lembrada com carinho, é Xôxa. Uma moça magrinha, cega, mas elegante, com sua bolsa debaixo do braço. Percorria a cidade e, pela voz, reconhecia cada pessoa, chamando-as pelo nome. Era presença certa nas manhãs de sábado, na Avenida, com parada obrigatória no Café de Nice; e. no domingo, lá estava ela na missa, com um livro na mão, fingindo que o lia.

Outro era Viriato, que tinha uma mania curiosa. Parava diante das casas e perguntava, em alto e bom som: “De quem é essa casa?” – e ia embora.  Que figura!

Já Paciência, o do hospital, com sua indefectível ecolalia. repetia tudo, no número exato, sem errar. “Um dia, Paciência disse que eu era bonito dez vezes seguidas. Saí do hospital mais vaidoso do que nunca!”, conta-nos um cruzalmense contemporâneo.

Mas a galeria não para por aí…

Jorge, o “Jorge Sebo”, vivia aprontando das suas. Quando jogavam um pouco de água nele, tirava a roupa no meio da praça e disparava um rosário de palavrões. Pior ainda se alguém esbarrasse em suas feridas; era um Deus-nos-acuda! Quem viu, não esquece.

Teve também Genaro, lembrado em tantas passagens, sempre pedindo nas portas. E que, quando ele passava pela manhã, dizia: “Me dá café, me dá açúcar, me dá bolacha”! Já na hora do almoço, ele pedia comida; mas, se dessem arroz com feijão sem “mistura”, ele olhava a vasilha e saia resmungando: “É duro, viu… ter casa bonita e comer feijão puro”! Rsrs! Genioso, mas gente boa, o Genaro!

Outra figura inesquecível é Mané Fresco, zelador da quadra do Cruz das Almas Clube que, quando se irritava com a rapaziada jogando bola, não tinha duas conversas: pegava a bola e furava com um canivete, para desespero de todos.

E quem não se lembra de Carrapeta? Ele morava na Rua da Malva, fundo com a casa de João Matias. Figura cativa no bar de Barrão, imitava bem alto o cantar dum bem-te-vi e gostava de andar ali pela calçada da avenida Alberto Passos, assustando os incautos com seus assobios estridentes.

Hoje, esses personagens vivem apenas na memória afetiva dos cruzalmenses. Eram diferentes, únicos, e talvez nem coubessem no tempo apressado em que vivemos agora. Mas fizeram parte do dia a dia da cidade, povoaram nossas ruas e nossas conversas, ajudando a compor essa história viva e cheia de gentes, que é Cruz das Almas.

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.