Há silêncios que pesam mais do que palavras. Cruz das Almas, cidade que se orgulha de tantos feitos e de tantos filhos ilustres, carrega um desses silêncios. Trata-se da ausência de uma homenagem pública a Jacinta Passos, filha desta terra, escritora, jornalista, militante política, uma mulher cujo nome ecoa em círculos acadêmicos dentro e fora do Brasil.

Jacinta não foi apenas uma intelectual refinada. Foi voz firme em tempos de repressão, mulher que se lançou no jornalismo e na literatura quando o espaço público ainda era negado a tantas outras. Seus versos e seus textos cruzaram fronteiras, dialogaram com o seu tempo e continuam a dialogar com o nosso. É conhecida em outras cidades, em outros estados e estudada até em universidades estrangeiras.

O contraste dói: enquanto fora daqui seu nome inspira pesquisas, teses e ensaios, em Cruz das Almas ela é apenas um desconhecido nome de rua, grafado em placa fria, sem memória viva que o sustente.

É curioso perceber como cidades menores, muitas vezes, tornam-se berços de personalidades que ganham o mundo. Mas o mundo reconhece antes da própria terra natal. Aqui, não há escola, biblioteca ou espaço cultural que lembre às novas gerações quem foi essa cruzalmense que ousou pensar e escrever de forma livre, que lutou por ideias, que marcou a literatura e a política.

Cruz das Almas tem uma dívida. Uma dívida de memória e de gratidão. Não basta apenas celebrar o passado festivo, as tradições, os vultos locais que construíram a cidade no campo econômico e político. É preciso reconhecer também quem construiu com palavras, com coragem e com pensamento.

Jacinta Passos não pode permanecer esquecida. Que esse silêncio seja, enfim, quebrado. Que sua cidade natal a acolha de volta na forma de homenagem pública, justa e necessária.

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A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.