Na Cruz das Almas de outros tempos, setembro tinha um brilho especial. A data era mais que um número no calendário: era quando a cidade se vestia de gala para celebrar a Independência do Brasil (história equivocada, mas era assim!) e a chegada da Primavera. O coração da festa estava na Praça Senador Temístocles, ponto de encontro de gerações, que se enchia de cores, passos marcados e música vibrante.

Lá pelas décadas de 50 e 60, o Colégio Alberto Torres e a Escola Comendador Themístocles, por exemplo, eram os que puxavam o cortejo, estudantes impecáveis no uniforme, marchando com disciplina e entusiasmo. As bandas marciais, ora do Tiro de Guerra, ora do Grupo de Escoteiros, davam o compasso da solenidade. E quando as filarmônicas, Euterpe Cruzalmense e a Lira Guarany, assumiam o som, a cadência ganhava alma. Não havia quem não se arrepiasse com a mistura de clarins, tambores e o vozerio da multidão.

O professor Manoelito Roque Sá sempre lembrava com nostalgia que, naqueles tempos, tinha desfile, “desfile do bom, desfile que abalava a cidade”. Não era exagero. O espetáculo envolvia toda a comunidade, do mais velho ao mais novo. Havia um certo orgulho em ver a mocidade marchando firme, como se cada passo fosse também uma declaração de pertencimento e de fé no futuro.

Antes de meados da década de 1970, eram duas as grandes ocasiões para tais desfiles em Cruz das Almas: o 7 de Setembro e a chegada da Primavera, ambos aguardados com ansiedade. Só depois é que o aniversário de emancipação política, em 29 de julho, ganhou também a sua marcha, transformando-se no desfile oficial da cidade. O curioso é que hoje apenas o 29 de Julho resiste como data cívica de desfile em Cruz das Almas.

Mas para quem viveu aqueles setembros, o eco dos tambores ainda ressoa na lembrança. O ritmo da juventude na praça, as bandeiras tremulando ao vento, o cheiro de roupa engomada no sol da manhã. Era um tempo em que os desfiles faziam a cidade pulsar em uníssono, e essa memória continua a desfilar, silenciosa, no coração dos cruzalmenses.

(Bem… é verdade que houve um período em que os estudantes desfilavam apenas para ganhar um pontinho na matéria que precisavam ou desfilavam de forma compulsória, condicionados pelo temor servil imposto por mensagens subliminares, etc e tal. Mas daí é história para outra crônica!)

Pois é…

notícia do mês

A Vila de Cruz das Almas ganhou foros de cidade, através da Lei Estadual nº1.597, em 31 de agosto de 1921.