CONECTANDO O PASSADO AO PRESENTE
Amanhã, 15 de setembro, uma segunda-feira, e Cruz das Almas acordará em feriado. É o dia da padroeira, Nossa Senhora do Bom Sucesso. Nem sempre foi assim. Antigamente, a data era 8 de dezembro, mas com a instalação da Diocese a festa foi transferida, e o calendário da fé se ajustou ao novo tempo.
Para escrever a crônica de hoje, lembrei-me que, certa vez, acessando um arquivo digital, folheei um antigo jornal e deparei-me com uma história que dormia na poeira do esquecimento. Bastou abrir aquelas páginas amareladas para que a Cruz das Almas de outrora ressurgisse diante de mim, com seus clarins, foguetes e fé.
Era 23 de setembro de 1906 e a cidade também amanhecera em festa para receber a imagem renovada da padroeira. Nossa Senhora do Bom Sucesso voltava repintada, ou, como se dizia à época: “encarnada”. A arte devolvia cor à pele e aos tecidos da escultura. E esse trabalho delicado foi feito pelas mãos femininas e negras da artista Filomena, de Muritiba, cujo sobrenome o jornal não registrou.
A reportagem descreve a cena como um grande acontecimento. A imagem teria chegado de trem, desembarcando na Estação de Pombal. Logo cedo, o povo católico já a esperava. São José e São Francisco, em suas charolas, haviam deixado a Matriz para ir ao encontro da padroeira. Era um rito que unia devoção e espetáculo popular. Atrás das imagens, seguia o povo em grande número, com cânticos. Mais de uma filarmônica dava o tom da marcha (a Euterpe Cruzalmense ainda não existia, só viria em 1910), talvez a antiga cruzalmense Philarmônica 2 de Julho (presidida por Fernando H. Ótens) e outras de cidades vizinhas.
Os foguetes riscavam o céu, o comércio se enfeitava, e as beatas puxavam ladainhas que se misturavam ao repicar do sino. O cortejo percorreu as ruas da estação até a igreja Matriz, onde a missa foi celebrada com solenidade e, ao fim, a bênção do Santíssimo. À noite, festa e oferecimento.
Fiquei a pensar que aquele jornal de 1906 não trouxe apenas um registro religioso. Ele guarda um retrato vivo da Cruz das Almas de então, em que cada gesto era transformado em rito. Hoje, percebo como a tradição persiste, mesmo em novos moldes. A fé continua a pulsar, entre música, cor e movimento, ligando o presente a um passado que insiste em permanecer; ou pelo menos, ser lembrado pelo Almanaque Cruzalmense.


