Noutro dia desses, era a tarde de um domingo, e passeando pela praça lembrei-me do cheiro das pipocas que comprava ali quando era menino. Olhei para o lado e vi que a pipoqueira já não é a mesma, não existe mais. Agora é um carrinho de pipoca.
Vi também que o pipoqueiro já é outro, não mais Sêo Máro. Talvez o nome de batismo de seo Máro fosse Mário, mas era assim mesmo que pronunciávamos: Máro da Pipoca. Um senhor usava um guarda-pó branco e que, apesar de sisudo, era simpático do seu jeito.
Já faz um bom tempo, mas bastou o vento trazer o aroma de milho estourado vindo de longe para que eu me visse, de repente, aquele rapazinho com a farda da escola, camisa branca de botão e calça de tergal azul-marinho na praça, sentado no banco curvo revestido de cacos coloridos de azulejos, segurando o saquinho de papel quente nas mãos e saboreando como se fosse a melhor iguaria do mundo.
Engraçado como a cabeça da gente guarda dentro dela uma coleção de gavetas invisíveis. Às vezes basta um detalhe banal: um som, um cheiro, uma cor, uma palavra, e uma dessas gavetas se abre. Não é passado nem presente. É um instante que insiste em existir de novo, entre o passado e o presente. É memória!

